Volume de dívidas negativadas ultrapassa R$ 220 bilhões e acende alerta sobre a saúde financeira do setor produtivo nacional.
O número de empresas inadimplentes no Brasil atingiu, em abril, o maior patamar já registrado pela série histórica da Serasa Experian. De acordo com levantamento divulgado pela instituição especializada em análise de crédito e finanças, cerca de 9 milhões de empresas possuíam algum tipo de dívida negativada no período, consolidando um novo recorde e evidenciando os desafios enfrentados pelo setor produtivo em meio ao cenário econômico ainda marcado por restrições financeiras e custos elevados de operação.
Os dados revelam que, juntas, essas empresas acumulavam R$ 220,9 bilhões em débitos vencidos e não quitados, valor que também reflete o agravamento da situação financeira de milhares de negócios espalhados pelo país. Em comparação com o mês anterior, houve crescimento tanto no número de empresas inadimplentes quanto no montante das dívidas, reforçando uma tendência de deterioração observada ao longo dos últimos meses.
O levantamento aponta ainda que o volume total de dívidas negativadas chegou a 63,7 milhões de registros, outro recorde histórico. Na prática, isso significa que cada empresa inadimplente possuía, em média, 7,1 contas em atraso. O valor médio das dívidas alcançou R$ 24.665,91 por CNPJ, demonstrando o peso financeiro enfrentado por empresários de diferentes segmentos da economia.
Especialistas observam que o aumento da inadimplência empresarial está diretamente relacionado a fatores como a desaceleração econômica, o elevado custo do crédito, a dificuldade de acesso a financiamentos e a redução da capacidade de consumo das famílias. Esses elementos acabam impactando o fluxo de caixa das empresas, especialmente das micro, pequenas e médias organizações, que possuem menor capacidade de absorver períodos prolongados de instabilidade financeira.
O avanço da inadimplência foi registrado justamente no período que antecedeu o lançamento do programa Novo Desenrola Brasil, conhecido como Desenrola 2.0. A iniciativa do governo federal entrou em vigor em 4 de maio com o objetivo de facilitar a renegociação de dívidas e ampliar o acesso ao crédito para empresas e cidadãos.
Segundo dados oficiais, o programa já contabilizou cerca de 85 mil operações de renegociação, movimentando aproximadamente R$ 11 bilhões desde o seu lançamento. A expectativa é que a iniciativa contribua para aliviar a situação financeira de milhares de empreendedores que enfrentam dificuldades para manter suas obrigações em dia e recuperar sua capacidade de investimento.
A trajetória da inadimplência empresarial já demonstrava sinais de aproximação do recorde nos meses anteriores. Desde outubro do ano passado, o indicador vinha oscilando próximo da marca histórica. Em novembro e dezembro, o país registrou 8,9 milhões de empresas inadimplentes. Em janeiro deste ano, houve uma leve redução para 8,7 milhões. No entanto, a partir daí, o número voltou a crescer gradualmente.
Os dados da Serasa mostram que, ao longo de 2025, houve um aumento médio de aproximadamente 100 mil empresas inadimplentes por mês, culminando nos 9 milhões registrados em abril. O comportamento do indicador reforça a preocupação de economistas e entidades empresariais quanto à capacidade de recuperação financeira de diversos setores da economia nacional.
Quando analisada a distribuição da inadimplência por segmento econômico, o setor de serviços aparece como o mais afetado. Responsável pela maior fatia do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, o segmento concentra 55,6% de todas as empresas negativadas. O resultado reflete a ampla participação do setor na economia e sua elevada dependência do consumo e da atividade econômica cotidiana.
Na segunda posição está o comércio, que responde por 32,4% das empresas inadimplentes. O setor vem enfrentando desafios relacionados à queda do poder de compra da população, à concorrência crescente do comércio eletrônico e às dificuldades de acesso ao crédito para capital de giro.
A indústria aparece em seguida, com participação de 8,1% no total de empresas com restrições financeiras. Já o setor primário, que engloba atividades como agricultura, pecuária e extrativismo, representa 0,9% dos registros de inadimplência empresarial.
Para analistas de mercado, os números refletem um momento delicado para o ambiente de negócios no Brasil. Apesar dos sinais de recuperação observados em alguns indicadores econômicos, a elevada taxa de inadimplência demonstra que muitas empresas ainda enfrentam dificuldades para equilibrar receitas e despesas, manter investimentos e preservar empregos.
A expectativa para os próximos meses é que medidas de renegociação de dívidas, programas de incentivo ao crédito e a eventual redução dos custos financeiros possam contribuir para uma desaceleração desse avanço. No entanto, especialistas ressaltam que a recuperação da saúde financeira das empresas dependerá também do fortalecimento da atividade econômica, do aumento da confiança empresarial e da ampliação das condições de crescimento sustentável para o setor produtivo.
Enquanto isso, o recorde de 9 milhões de empresas inadimplentes reforça um dos principais desafios da economia brasileira na atualidade: garantir condições para que empreendedores possam recuperar sua capacidade financeira, preservar suas operações e continuar contribuindo para a geração de empregos, renda e desenvolvimento econômico em todo o país.





