Mais de 33 milhões de brasileiros deixaram de comparecer às urnas no primeiro turno das eleições deste domingo (4). A abstenção alcançou aproximadamente 21,08% do eleitorado, segundo os dados da Justiça Eleitoral, consolidando um dos maiores índices de ausência já registrados em uma eleição presidencial no país.
O percentual chama atenção não apenas pelo volume de eleitores que não participaram diretamente da votação, mas também pelo impacto que esse contingente representa diante do resultado apertado da disputa pela Presidência da República. A diferença entre os dois candidatos que avançaram para o segundo turno foi significativamente menor que o número de brasileiros que optaram por não votar.
Flávio Bolsonaro (PL) encerrou o primeiro turno na primeira colocação, à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com uma vantagem de pouco mais de 2,3 milhões de votos. Em termos percentuais, a distância entre os dois ficou em aproximadamente dois pontos percentuais dos votos válidos.
A dimensão da abstenção ajuda a compreender a magnitude do eleitorado que permaneceu fora da disputa direta neste primeiro momento. O número de ausentes foi cerca de 14 vezes superior à vantagem obtida por Flávio sobre Lula.
Um eleitorado maior que a diferença entre os candidatos
Embora os votos de eleitores ausentes não possam ser contabilizados como votos destinados a qualquer candidatura, a comparação matemática evidencia o tamanho do universo eleitoral que não participou da escolha neste domingo.
Com Flávio Bolsonaro alcançando aproximadamente 47% dos votos válidos e Lula ficando com cerca de 45%, nenhum dos dois conseguiu atingir o percentual necessário para encerrar a disputa já no primeiro turno.
Pelas regras eleitorais brasileiras, a eleição presidencial é decidida em primeiro turno somente quando um candidato obtém mais da metade dos votos válidos. Votos brancos e nulos não são considerados nesse cálculo.
Por isso, a disputa seguirá para uma segunda etapa, marcada para 25 de outubro, quando os eleitores voltarão às urnas para escolher entre os dois candidatos mais votados.
O cenário também demonstra como a participação eleitoral será um dos fatores relevantes na segunda etapa da campanha. Além da disputa pelo voto daqueles que escolheram outras candidaturas no primeiro turno, os dois concorrentes precisarão buscar a parcela do eleitorado que não compareceu às urnas.
Abstenção supera índice registrado em 2022
O percentual de 21,08% registrado neste primeiro turno também representa uma alta em relação à eleição presidencial de 2022.
Naquele pleito, 32.770.982 eleitores deixaram de votar, o equivalente a 20,95% do eleitorado. Na ocasião, Luiz Inácio Lula da Silva terminou o primeiro turno com 48,43% dos votos válidos, enquanto Jair Bolsonaro alcançou 43,20%.
A diferença entre os índices de 2022 e 2026 pode parecer pequena quando observada apenas em termos percentuais, mas ganha dimensão quando convertida em números absolutos. O crescimento representa centenas de milhares de eleitores a mais fora das urnas.
O comportamento da abstenção, portanto, passa a integrar o cenário político do segundo turno, especialmente porque a eleição presidencial deste ano apresenta uma disputa mais equilibrada na comparação com pleitos anteriores.
Número também supera o registrado em 2018
Em 2018, a abstenção no primeiro turno ficou em 20,33%, com aproximadamente 29,9 milhões de eleitores ausentes, de acordo com os registros da Justiça Eleitoral.
O índice de 2026, portanto, supera também o registrado naquela eleição, ampliando uma tendência de elevada ausência dos eleitores em disputas presidenciais recentes.
Apesar do crescimento observado em relação a 2018 e 2022, o percentual deste ano ainda não representa o maior índice histórico registrado em uma eleição presidencial brasileira.
O recorde permanece associado ao primeiro turno de 1998, quando 21,49% do eleitorado não compareceu às urnas.
Naquele ano, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) foi reeleito presidente da República ainda no primeiro turno.
Segundo turno terá novo desafio para as campanhas
Com a definição da disputa entre Flávio Bolsonaro e Lula, o cenário eleitoral entra agora em uma nova fase. A partir deste momento, as campanhas terão pouco mais de três semanas para ampliar alianças, conquistar novos segmentos do eleitorado e tentar transformar a vantagem obtida no primeiro turno em vitória definitiva.
Além dos votos recebidos pelos dois candidatos, um dos principais focos da estratégia eleitoral deverá estar nos eleitores que escolheram outras candidaturas e, sobretudo, na parcela que não compareceu às urnas.
O segundo turno apresenta, dessa maneira, uma equação política diferente daquela observada no primeiro. Os candidatos deixam de disputar uma eleição pulverizada entre várias opções e passam a protagonizar uma escolha direta entre dois projetos políticos.
Nesse cenário, cada ponto percentual pode adquirir peso decisivo.
A elevada abstenção registrada neste domingo acrescenta uma variável importante à disputa. Mais de 33 milhões de brasileiros que estavam aptos a votar não participaram da primeira etapa, formando um universo eleitoral muito superior à diferença que separou os dois candidatos classificados.
Isso não significa, naturalmente, que todos esses eleitores tenham uma posição política definida ou que necessariamente participariam de uma eventual votação. Também não é possível presumir que os ausentes apoiariam determinada candidatura caso comparecessem às urnas.
Ainda assim, o tamanho desse contingente revela o potencial de mobilização que estará no centro das estratégias para o segundo turno.
Participação eleitoral volta ao centro do debate
A abstenção elevada também deve alimentar discussões sobre participação política, engajamento eleitoral e os fatores que levam milhões de brasileiros a não comparecer às urnas mesmo em uma eleição presidencial.
Questões relacionadas à distância dos locais de votação, compromissos pessoais, dificuldades de deslocamento, desinteresse político, descrença nas instituições, problemas de saúde e outras circunstâncias podem influenciar a decisão de não votar.
Em uma eleição marcada por uma disputa acirrada, entretanto, a ausência ganha uma dimensão ainda mais relevante.
A diferença de pouco mais de 2,3 milhões de votos entre os dois candidatos que avançaram ao segundo turno é pequena quando comparada ao universo de eleitores que não participaram da votação. A matemática eleitoral, embora não permita atribuir intenção política aos ausentes, mostra que a participação pode ter papel determinante na configuração do resultado final.
O segundo turno, marcado para 25 de outubro, será, portanto, uma nova disputa por votos e também por participação.
Depois de uma primeira etapa marcada pela elevada abstenção, Flávio Bolsonaro e Lula terão pela frente o desafio de ampliar suas respectivas bases eleitorais, conquistar os votos das candidaturas eliminadas e estimular a participação de eleitores que ficaram fora das urnas.
A decisão final dependerá dos votos efetivamente registrados no segundo turno. Mas uma certeza já se desenha no horizonte eleitoral: depois de uma primeira rodada marcada por uma abstenção superior a 33 milhões de eleitores, a capacidade de mobilizar o eleitorado será um dos elementos centrais da batalha pela Presidência da República.






