O ex-ministro da Fazenda e candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, afirmou nesta terça-feira (1º) considerar “curiosa” a resistência de parte do agronegócio brasileiro aos candidatos petistas nas eleições de 2026. A declaração ocorreu durante agenda de campanha pelo interior paulista, em meio ao debate sobre os impactos das tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros e sobre a relação entre o setor produtivo e o governo federal.
Em entrevista à EPTV Campinas, Haddad procurou destacar medidas adotadas durante sua passagem pelo Ministério da Fazenda e argumentou que o agronegócio teria alcançado resultados expressivos durante administrações petistas. Segundo o candidato, sua avaliação se baseia principalmente nos Planos Safra elaborados durante sua gestão na pasta.
“Eu chego a achar curiosa essa resistência, porque o agro só ganha muito dinheiro nos nossos governos”, declarou. Na sequência, citou como exemplo os quatro Planos Safra realizados durante sua gestão, classificando-os como iniciativas que teriam sido reconhecidas positivamente por representantes do setor.
Haddad também afirmou que o Brasil atravessa um período de expansão da produção e das exportações agropecuárias. “O agro nunca produziu tanto, o agro nunca exportou tanto. O Brasil vai ser o maior produtor de alimentos do mundo, superando os Estados Unidos neste ano”, afirmou.
A declaração ocorre em um contexto no qual o agronegócio ocupa posição estratégica na economia brasileira e representa um dos principais segmentos da pauta de exportações do país. Ao mesmo tempo, o setor mantém uma relação politicamente diversificada, com parcela significativa de suas lideranças tradicionalmente alinhada a grupos de centro-direita e direita, o que torna o apoio do segmento uma questão relevante para a disputa eleitoral de 2026.
Tarifaço norte-americano entra no centro do debate
Durante a entrevista, Fernando Haddad também direcionou críticas à família do ex-presidente Jair Bolsonaro e ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ao abordar a política comercial adotada pelo governo do presidente norte-americano Donald Trump.
O candidato petista afirmou que o chamado “tarifaço” provocou prejuízos especialmente para São Paulo, estado que, segundo cálculos da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), pode deixar de movimentar aproximadamente US$ 3 bilhões em razão das medidas comerciais norte-americanas.
Haddad criticou o posicionamento atribuído a Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Tarcísio de Freitas durante o episódio. “Com o tarifaço do Trump, que prejudicou São Paulo, festejado pelo Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e Tarcísio, que botou o bonezinho do Trump, nós diversificamos a pauta de exportação e abrimos 600 mercados para o agro, inclusive de São Paulo”, afirmou.
A fala coloca o comércio exterior no centro da disputa política paulista. Para Haddad, a reação brasileira às barreiras impostas pelos Estados Unidos teria estimulado a busca por novos compradores internacionais e ampliado a diversificação da pauta de exportações.
O argumento ganha relevância especialmente para São Paulo, principal economia estadual do país e um dos maiores polos industriais, agropecuários e exportadores brasileiros. A eventual redução das vendas ao mercado norte-americano pode atingir diferentes cadeias produtivas, com efeitos que vão além do setor diretamente afetado pelas tarifas.
Interior paulista aparece entre as áreas mais impactadas
Os impactos econômicos do tarifaço também ganharam dimensão regional. Segundo cálculos da ApexBrasil, São Paulo é o estado brasileiro potencialmente mais afetado pelas medidas comerciais dos Estados Unidos, com uma estimativa de até US$ 3 bilhões em movimentação que poderia deixar de ocorrer.
Entre as regiões paulistas apontadas como mais expostas aos efeitos da medida estão Sorocaba, Campinas, Franca e Birigui, além do Grande ABC e do Vale do Paraíba.
A concentração de diferentes segmentos industriais e produtivos nessas áreas aumenta a preocupação de empresários e trabalhadores diante das possíveis consequências sobre exportações, investimentos, empregos e cadeias de fornecedores. O cenário também adiciona um componente econômico importante à disputa pelo governo estadual.
Ao cumprir agenda pelo interior de São Paulo, Haddad busca ampliar sua presença junto a diferentes segmentos da população e apresentar sua candidatura como alternativa ao atual cenário político do estado. A estratégia também passa pelo diálogo com setores produtivos que, historicamente, apresentam resistência ao PT.
Negociações entre Brasil e Estados Unidos são retomadas
Paralelamente à agenda eleitoral, representantes dos governos brasileiro e norte-americano deram continuidade, no início desta semana, às negociações comerciais destinadas a tratar dos efeitos das novas tarifas.
As conversas foram retomadas após um telefonema entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. O diálogo entre os dois governos ocorre em um momento de elevada tensão comercial e de preocupação de setores empresariais brasileiros com os efeitos das medidas norte-americanas.
A expectativa em Brasília é de que as negociações possam produzir alternativas para reduzir os impactos das tarifas sobre produtos brasileiros. Para o setor exportador, o resultado dessas tratativas poderá influenciar decisões de produção, contratos internacionais e estratégias comerciais nos próximos meses.
Agronegócio será peça importante na eleição de 2026
A aproximação ou o distanciamento entre o PT e o agronegócio deverá permanecer como um dos temas relevantes da eleição de 2026. O setor possui forte peso econômico, influência regional e capacidade de mobilização política, especialmente no interior paulista.
Ao reivindicar os resultados dos Planos Safra e defender que o setor teria prosperado durante governos petistas, Haddad tenta disputar uma narrativa que tradicionalmente favorece seus adversários políticos. A estratégia consiste em apresentar indicadores de produção, exportação e financiamento agrícola como argumentos para aproximar o eleitorado ligado ao campo de sua candidatura.
Por outro lado, a resistência mencionada pelo ex-ministro revela que a disputa não se limita a números econômicos. Questões ideológicas, alinhamentos políticos, confiança nas políticas governamentais e perspectivas para o futuro do setor também influenciam o posicionamento de produtores e entidades representativas.
Com a corrida eleitoral de 2026 avançando, o agronegócio tende a ocupar espaço cada vez maior no debate sobre os rumos econômicos de São Paulo e do Brasil. A discussão sobre crédito rural, infraestrutura, logística, abertura de mercados, relações comerciais internacionais e políticas de incentivo à produção deverá se transformar em um dos principais campos de disputa entre os candidatos.
Nesse cenário, as declarações de Fernando Haddad representam uma tentativa de estabelecer uma ponte com um segmento estratégico da economia paulista, ao mesmo tempo em que reforçam sua crítica aos adversários políticos e à condução das relações com os Estados Unidos durante o episódio do tarifaço.
A disputa pelo governo de São Paulo, portanto, começa a incorporar com maior intensidade temas que ultrapassam os limites da política estadual. Comércio exterior, agronegócio, relações diplomáticas e política econômica passam a integrar o discurso eleitoral, enquanto candidatos e grupos políticos buscam conquistar o apoio de setores fundamentais para a economia e para o resultado das urnas em 2026.






