A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) divulgou nesta segunda-feira (24) uma carta aberta dirigida aos candidatos que disputarão cargos eletivos nas eleições de 2026. O documento reúne contribuições da instituição para o debate público e apresenta uma série de prioridades consideradas estratégicas para a construção de políticas públicas voltadas à saúde, à ciência, à tecnologia e ao desenvolvimento sustentável do Brasil nos próximos anos.
Reconhecida por sua atuação histórica nas áreas de pesquisa, produção de vacinas, medicamentos, insumos estratégicos e tecnologias para a saúde, a Fiocruz busca, por meio da iniciativa, ampliar a discussão sobre os desafios que deverão estar no centro das propostas apresentadas pelas candidaturas durante o processo eleitoral.
Mais do que apontar medidas específicas para o setor, a instituição defende uma compreensão ampla da saúde, considerando que a qualidade de vida da população está diretamente relacionada a fatores sociais, econômicos, ambientais, científicos e políticos. Para a Fiocruz, discutir saúde significa também enfrentar desigualdades, melhorar as condições de trabalho, proteger o meio ambiente, fortalecer a democracia e ampliar o acesso da população ao conhecimento e às políticas públicas.
Entre os principais desafios identificados pela instituição estão as desigualdades existentes no acesso aos serviços de saúde entre diferentes regiões do país, os impactos das mudanças climáticas, o avanço da violência e o crescimento da desinformação, especialmente em temas relacionados à ciência e à saúde pública.
A carta destaca que a construção de uma política de saúde eficiente não pode ficar restrita à ampliação de hospitais ou à oferta de medicamentos. Segundo a Fiocruz, é necessário considerar o conjunto de condições que determina o bem-estar da população e influencia diretamente os indicadores de saúde.
“Priorizar a saúde exige um olhar que transcende hospitais e medicamentos. Implica reconhecer que as condições de saúde são produzidas nas relações entre políticas públicas, formas de organização da vida social, produção do conhecimento, trabalho, ambiente e democracia”, aponta a entidade.
Saúde como prioridade estratégica para o país
Ao apresentar suas contribuições, a Fiocruz ressalta a importância de colocar a saúde no centro das discussões sobre o futuro do Brasil. A instituição considera que os próximos anos serão marcados por desafios que exigirão capacidade de planejamento, investimentos permanentes e articulação entre diferentes áreas do poder público.
Nesse contexto, o Sistema Único de Saúde (SUS) aparece como um dos principais pilares da proposta apresentada pela Fundação. A instituição defende o fortalecimento do sistema e a melhoria da qualidade do atendimento em todas as regiões brasileiras, com atenção especial às desigualdades que ainda dificultam o acesso da população aos serviços de saúde.
A dimensão territorial é considerada fundamental nesse debate. Enquanto grandes centros urbanos concentram parte significativa da infraestrutura e dos serviços especializados, municípios menores e regiões mais afastadas ainda enfrentam dificuldades relacionadas à oferta de profissionais, equipamentos, medicamentos e atendimento de média e alta complexidade.
Para a Fiocruz, reduzir essas diferenças deve ser uma prioridade das políticas públicas, garantindo que o acesso à saúde não seja determinado pelo local onde o cidadão vive.
Valorização dos profissionais de saúde
Outro ponto destacado na carta é a valorização dos trabalhadores da saúde. A instituição defende políticas capazes de reconhecer a importância dos profissionais que atuam diariamente na assistência à população, na pesquisa, na vigilância, na prevenção de doenças e na gestão dos serviços.
A discussão envolve não apenas remuneração, mas também condições adequadas de trabalho, formação profissional, qualificação permanente, segurança e valorização das diferentes carreiras que compõem o sistema de saúde brasileiro.
A Fiocruz entende que um sistema de saúde forte depende diretamente de profissionais preparados, valorizados e capazes de desenvolver suas atividades em condições adequadas.
Ciência, vacinas, medicamentos e tecnologia produzidos no Brasil
A autonomia científica e tecnológica também ocupa lugar de destaque entre as prioridades apresentadas. A instituição defende o aumento da capacidade brasileira de produzir ciência, vacinas, medicamentos e tecnologias estratégicas para a saúde.
A proposta ganha relevância diante das experiências recentes envolvendo emergências sanitárias, que demonstraram a importância de países possuírem capacidade própria de pesquisa, produção e inovação.
Para a Fiocruz, fortalecer a ciência nacional significa ampliar investimentos em pesquisa e desenvolvimento, estimular a inovação e criar condições para que o Brasil reduza sua dependência externa em áreas consideradas estratégicas.
A produção nacional de insumos e tecnologias de saúde é apresentada, portanto, não apenas como uma questão econômica, mas também como um componente da segurança sanitária e da soberania nacional.
Combate às desigualdades e proteção às populações vulneráveis
A redução das desigualdades sociais aparece como outro eixo central do documento. A Fiocruz defende políticas públicas capazes de alcançar populações que enfrentam maiores dificuldades de acesso aos serviços essenciais e que estão mais expostas a fatores de risco.
A instituição chama atenção para a necessidade de considerar as diferentes realidades existentes no território brasileiro, levando em conta fatores econômicos, sociais, ambientais e regionais.
Nesse cenário, garantir acesso equitativo à saúde representa um dos grandes desafios para as próximas administrações públicas. A proposta é ampliar a proteção social e assegurar que grupos em situação de maior vulnerabilidade não sejam deixados à margem das políticas públicas.
Mudanças climáticas e preparação para novas emergências
Os impactos das mudanças climáticas também aparecem entre as preocupações apresentadas pela Fiocruz. Eventos extremos, alterações ambientais e novas condições epidemiológicas podem produzir efeitos significativos sobre a saúde da população e pressionar os sistemas de atendimento.
A instituição defende que o Brasil esteja preparado para responder a futuras emergências sanitárias e possíveis pandemias, fortalecendo estruturas de vigilância, pesquisa, prevenção e resposta rápida.
A experiência das últimas grandes emergências de saúde pública reforçou a necessidade de planejamento antecipado e de estruturas permanentes capazes de identificar riscos e mobilizar recursos diante de novas ameaças.
Para a Fiocruz, a preparação não deve ocorrer apenas quando uma crise já estiver instalada. É necessário desenvolver políticas preventivas, ampliar a capacidade científica e tecnológica e integrar diferentes setores do Estado.
Ciência e sociedade diante da desinformação
A carta também dedica atenção à necessidade de reconstruir e fortalecer a confiança da sociedade na ciência. Em um ambiente marcado pela rápida circulação de informações nas redes sociais e por conteúdos falsos ou distorcidos, a Fiocruz considera fundamental ampliar o diálogo entre instituições científicas e população.
O enfrentamento à desinformação, segundo a proposta, deve caminhar ao lado de estratégias de comunicação pública capazes de tornar o conhecimento científico mais acessível e compreensível.
A instituição defende que a aproximação entre ciência e sociedade seja permanente, permitindo que a população tenha acesso a informações confiáveis e possa participar de maneira mais qualificada das discussões que envolvem políticas públicas.
Desenvolvimento sustentável e cooperação internacional
O último eixo apresentado pela Fiocruz trata do desenvolvimento sustentável e do papel do Brasil na cooperação internacional em saúde.
A instituição defende que o país concilie desenvolvimento econômico, proteção ambiental, redução das desigualdades e fortalecimento das políticas sociais. Ao mesmo tempo, destaca a importância da participação brasileira em iniciativas internacionais relacionadas à saúde, à ciência e à resposta a emergências.
Em um mundo cada vez mais interdependente, questões sanitárias ultrapassam fronteiras. Doenças infecciosas, mudanças climáticas, circulação de pessoas e cadeias globais de produção podem gerar desafios que exigem articulação entre diferentes países e instituições.
Um convite ao debate eleitoral
Ao reunir os sete eixos, a Fiocruz apresenta o documento como um “convite ao diálogo” e uma contribuição para o debate público que deverá marcar as eleições de 2026.
A intenção, segundo a entidade, é oferecer elementos para que candidatos, partidos, equipes responsáveis pela elaboração de programas de governo e a própria sociedade possam discutir os rumos das políticas de saúde e ciência nos próximos anos.
“O objetivo é oferecer prioridades para o país, dialogando com a sociedade, com as candidaturas e com as equipes que irão formular propostas para os próximos anos”, afirma a instituição.
Os sete pontos apresentados pela Fiocruz são: fortalecer o Sistema Único de Saúde e melhorar o cuidado em todo o país; valorizar os trabalhadores da saúde; ampliar a produção nacional de ciência, vacinas, medicamentos e tecnologias; reduzir desigualdades e proteger populações em situação de maior vulnerabilidade; preparar o Brasil para os impactos da crise climática e para novas emergências sanitárias ou pandemias; reforçar a confiança pública, combater a desinformação e ampliar o diálogo entre ciência e sociedade; além de defender o desenvolvimento sustentável e fortalecer o papel brasileiro na cooperação internacional em saúde.
A iniciativa coloca a saúde e a ciência no centro de uma discussão que tende a ganhar ainda mais espaço ao longo do processo eleitoral. Para a Fiocruz, o desafio apresentado às futuras administrações vai além da ampliação de serviços: envolve construir um país mais preparado para crises, reduzir desigualdades, fortalecer sua capacidade científica e tecnológica e assegurar que políticas públicas sejam formuladas com base em conhecimento, planejamento e compromisso social.
Com a divulgação da carta, a instituição procura contribuir para que temas estruturantes da saúde brasileira sejam incorporados às propostas das candidaturas e debatidos de forma ampla pela sociedade. Em um cenário de transformações sociais, ambientais e tecnológicas, a mensagem central é que as decisões tomadas nos próximos anos terão impacto direto sobre a capacidade do país de proteger sua população, responder a novas emergências e construir um sistema de saúde mais integrado, acessível e resiliente.






