Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, indicam que o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), utilizou em diferentes ocasiões uma residência ligada ao banqueiro no Lago Sul, em Brasília. De acordo com informações divulgadas nesta terça-feira (29), os registros apontam ao menos seis visitas do parlamentar ao imóvel entre junho e novembro de 2025.
A residência, avaliada em aproximadamente R$ 36 milhões, está localizada em uma das áreas mais valorizadas da capital federal e já havia sido descrita como um espaço utilizado por Vorcaro para receber políticos, autoridades e outras pessoas de seu círculo de relacionamento. O imóvel possui cerca de 1,7 mil metros quadrados de área construída e 4,3 mil metros quadrados de área privativa, segundo informações publicadas anteriormente.
Os novos registros acrescentam elementos à apuração sobre a relação entre Motta e Vorcaro, que já vinha sendo investigada a partir de outras mensagens encontradas pela Polícia Federal. Os diálogos revelados nos últimos meses apontam uma relação de proximidade entre o parlamentar e o banqueiro, com conversas sobre encontros, compromissos e diferentes assuntos de interesse dos dois.
Visitas registradas no imóvel
Segundo os dados obtidos pela Polícia Federal, Motta teria utilizado a residência em pelo menos seis ocasiões entre junho e novembro de 2025. Os registros mostram que a presença do presidente da Câmara no imóvel era comunicada a Vorcaro por um funcionário responsável pela administração da casa.
Um dos episódios considerados relevantes pelos investigadores ocorreu em 17 de novembro de 2025. Naquele dia, enquanto Vorcaro estava em São Paulo e acabou preso pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos, o funcionário responsável pelo imóvel comunicou ao banqueiro que Hugo Motta estaria na residência durante a noite.
Na conversa, o funcionário informou: “À noite irei receber Hugo na casa”. Vorcaro respondeu: “Ok. Me avise sempre antes”.
A troca de mensagens, segundo as informações divulgadas, indica que a utilização da residência por Motta era previamente comunicada ao proprietário ou responsável pelo imóvel. O episódio ganhou relevância adicional pelo fato de ter ocorrido justamente no dia da prisão de Vorcaro.
O banqueiro foi preso pela Polícia Federal em 17 de novembro de 2025, quando se preparava para embarcar para o exterior. A prisão ocorreu no âmbito da Operação Compliance Zero, investigação que apurou suspeitas relacionadas a operações financeiras do Banco Master.
Relação entre Motta e Vorcaro
As informações sobre o uso da casa no Lago Sul surgem em meio a uma série de revelações envolvendo a relação entre Hugo Motta e Daniel Vorcaro.
Mensagens analisadas pela Polícia Federal já haviam indicado conversas frequentes entre os dois e uma relação pessoal próxima. Em outros diálogos, Motta e Vorcaro tratam de negócios e assuntos relacionados a empreendimentos imobiliários. A documentação também menciona um empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões concedido pelo Banco Master a uma empresa ligada à cunhada do presidente da Câmara.
Em outra frente, reportagens baseadas nas mensagens apreendidas pela PF apontaram que Motta teria tratado com Vorcaro de questões relacionadas a negócios imobiliários envolvendo sua família. Os registros são parte do conjunto de informações analisadas no âmbito das investigações sobre o Banco Master.
A existência das conversas e dos encontros, contudo, não significa, por si só, comprovação de crime. Eventuais responsabilidades dependerão da análise integral dos documentos, da apuração das circunstâncias de cada episódio e das conclusões das autoridades responsáveis pelo caso.
Imóvel era utilizado para encontros com autoridades
A residência do Lago Sul já havia aparecido anteriormente nas investigações e reportagens relacionadas a Vorcaro. O imóvel teria sido utilizado pelo banqueiro para encontros reservados com integrantes da classe política e autoridades.
Em março de 2025, por exemplo, registros analisados pela Polícia Federal indicaram um encontro envolvendo Hugo Motta, o senador Ciro Nogueira e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes na casa de Vorcaro. A informação constou de relatório elaborado pela PF a partir de mensagens apreendidas do celular do banqueiro.
A mansão passou, assim, a ocupar posição de destaque no conjunto de informações que vêm sendo reveladas sobre a rede de relações mantida pelo ex-banqueiro em Brasília.
Reportagens anteriores também apontaram que o imóvel era utilizado para recepcionar figuras de destaque da política nacional, em encontros que, segundo os registros divulgados, faziam parte do círculo de relacionamento de Vorcaro.
Uso de outro imóvel em São Paulo
Além das visitas à residência do Lago Sul, as mensagens indicam que Hugo Motta também teria utilizado outro imóvel relacionado a Vorcaro, desta vez em São Paulo, em 2024.
O conjunto de registros passou a ser analisado pela Polícia Federal dentro de uma investigação mais ampla sobre os contatos mantidos por Vorcaro com políticos, empresários e autoridades antes da deflagração das medidas contra o Banco Master.
As mensagens, isoladamente, não estabelecem necessariamente qualquer irregularidade. O ponto central da investigação é compreender a natureza das relações, os eventuais negócios associados aos contatos e se houve alguma contrapartida indevida ou favorecimento decorrente dessas relações.
Investigação sobre o Banco Master
Daniel Vorcaro foi preso em novembro de 2025 durante a Operação Compliance Zero. A investigação da Polícia Federal envolveu suspeitas relacionadas à emissão de títulos de crédito e a operações financeiras realizadas pelo Banco Master.
Naquele momento, a Justiça Federal manteve a prisão preventiva do banqueiro e mencionou, na decisão, suspeitas de irregularidades envolvendo carteiras de crédito e operações que poderiam gerar impactos bilionários no sistema financeiro.
O caso passou a envolver diferentes frentes de investigação e, posteriormente, mensagens encontradas no celular de Vorcaro trouxeram informações sobre seus contatos com autoridades, parlamentares e empresários.
Com a retirada de sigilo de parte dos documentos, novos episódios passaram a ser conhecidos publicamente, ampliando o debate sobre a relação entre o banqueiro e integrantes dos principais centros de poder de Brasília.
Motta não se manifesta sobre uso da residência
Procurado especificamente sobre o uso da residência de Daniel Vorcaro no Lago Sul, Hugo Motta informou que não se manifestaria sobre o assunto, segundo as informações divulgadas.
A ausência de manifestação específica sobre o episódio deixa em aberto a versão do parlamentar a respeito das circunstâncias das visitas, da frequência com que utilizou o imóvel e da natureza dos encontros realizados no local.
As investigações continuam, e os registros obtidos pela Polícia Federal deverão ser analisados em conjunto com outros documentos, depoimentos, movimentações financeiras e demais elementos reunidos no caso.
O episódio reforça a dimensão política adquirida pelas investigações envolvendo o Banco Master, especialmente diante da quantidade de autoridades e agentes públicos mencionados nos arquivos apreendidos. Ao mesmo tempo, a análise dos fatos precisa distinguir relações pessoais, encontros políticos, negócios privados e eventuais condutas que possam configurar ilícitos distinção que dependerá das conclusões formais das autoridades responsáveis pela investigação.
Por enquanto, as mensagens revelam a existência dos contatos e das visitas, mas a eventual existência de irregularidades decorrentes dessas relações ainda depende da apuração e das conclusões das autoridades competentes.






