O candidato à Presidência da República Augusto Cury (Avante) afirmou que não pretende apoiar nem Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nem Flávio Bolsonaro (PL) caso os dois candidatos avancem para um eventual segundo turno das eleições de 2026. A declaração foi dada em 21 de setembro, antes de sua participação no debate presidencial promovido pelo Flow Podcast, em meio à intensificação da disputa eleitoral.
A manifestação marca uma mudança em relação ao posicionamento apresentado por Cury poucos dias antes. Em 10 de setembro, durante um encontro na Genial Investimentos, o candidato havia descartado apoio a Lula e afirmado que uma eventual aproximação com Flávio Bolsonaro dependeria de esclarecimentos sobre questões que havia levantado publicamente, além de compromissos relacionados ao seu programa de governo.
Agora, Cury passou a apresentar uma posição mais definida de neutralidade diante de um possível confronto entre os dois principais nomes da polarização política brasileira. Segundo o candidato, mesmo diante de uma disputa que colocasse Lula e Flávio frente a frente, ele não declararia apoio a nenhum dos dois.
“Vou deixar muito claro, nós vamos para o segundo turno e eu não vou apoiar nem Lula da Silva, zero. E nem vou apoiar o Flávio Bolsonaro”, afirmou Cury antes do debate do Flow Podcast.
Candidato diz querer governar para diferentes correntes políticas
Ao explicar sua posição, Cury voltou a defender uma proposta de governo que, segundo ele, pretende ultrapassar a divisão tradicional entre direita e esquerda. O candidato afirmou que deseja governar para os diferentes setores do espectro político e criticou o ambiente de confrontação que, em sua avaliação, vem marcando o debate público no país.
Um dos principais conceitos utilizados por Cury é o que ele chama de “indústria do ódio”. Para o candidato, a disputa permanente entre grupos políticos adversários contribui para aprofundar conflitos sociais e dificulta a construção de consensos em torno de temas nacionais.
Cury afirmou que a polarização passou a produzir ataques de ambos os lados. Segundo ele, setores da direita fazem críticas à esquerda e, em sentido inverso, setores da esquerda associam a direita a posições que considera incompatíveis com determinados valores democráticos e sociais.
Na avaliação apresentada pelo candidato, a continuidade desse confronto impede que o debate político se concentre de maneira mais ampla em propostas para o desenvolvimento do país.
“Essa indústria do ódio destruiu a nação brasileira. E eu quero deixar muito claro, a minha proposta é para governar os dois”, declarou.
A crítica à polarização não é nova na campanha de Cury. Em entrevista ao SBT News, em agosto, o candidato já havia afirmado que o antagonismo entre petismo e bolsonarismo estaria dividindo a sociedade brasileira e comparou o cenário político a uma “praça de guerra”. Na ocasião, defendeu a ideia de que o país deveria ser tratado como uma unidade, em vez de ser dividido entre grupos políticos rivais.
Mudança de posicionamento sobre Flávio Bolsonaro
A nova declaração também chama atenção porque ocorre poucos dias depois de Cury ter adotado uma postura diferente em relação a uma possível candidatura de Flávio Bolsonaro no segundo turno.
Em 10 de setembro, Cury afirmou que não apoiaria Lula “em hipótese nenhuma”, mas não fechou completamente a possibilidade de apoiar Flávio. Na ocasião, condicionou um eventual apoio ao candidato do PL à apresentação de esclarecimentos sobre o filme “Dark Horse”, à comprovação, segundo os critérios mencionados pelo próprio Cury, de que Flávio não seria corrupto e ao compromisso com pontos de seu programa de governo.
Na declaração mais recente, entretanto, Cury deixou de apresentar condições para uma eventual aliança e passou a afirmar diretamente que não apoiará nenhum dos dois nomes caso o cenário de segundo turno seja formado por Lula e Flávio Bolsonaro.
A mudança ocorre em um momento de maior movimentação entre as candidaturas presidenciais, com os candidatos intensificando entrevistas, debates e aparições públicas na tentativa de ampliar sua presença no eleitorado.
Debate presidencial amplia exposição dos candidatos
A declaração foi feita antes do debate realizado pelo Flow Podcast, que reuniu Cury, Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo). Lula, Flávio Bolsonaro e Renan Santos não participaram do encontro.
A participação de Cury no debate ocorreu em meio à divulgação de novas pesquisas eleitorais. Levantamento Quaest divulgado em 21 de setembro apontou Lula com 37% das intenções de voto no primeiro turno, seguido por Flávio Bolsonaro, com 33%, enquanto Cury apareceu com 6%. A pesquisa ouviu 2.004 eleitores entre 17 e 20 de setembro e apresentou margem de erro de dois pontos percentuais.
Outro levantamento, realizado pela BTG/Nexus e divulgado no mesmo período, registrou Lula com 40%, Flávio Bolsonaro com 37% e Cury com 6% no cenário estimulado de primeiro turno. A pesquisa ouviu 2.006 pessoas entre 18 e 20 de setembro, com margem de erro de dois pontos percentuais.
Os números ajudam a contextualizar o ambiente eleitoral no qual Cury vem tentando consolidar sua candidatura, ao mesmo tempo em que procura apresentar-se como uma alternativa à polarização entre os dois grupos políticos que dominam a disputa presidencial.
Discurso de independência diante da polarização
Ao optar por não declarar apoio a nenhum dos dois possíveis adversários em um segundo turno, Cury procura manter uma posição própria dentro da campanha presidencial. Seu discurso tem sido construído em torno da crítica à polarização, da defesa do diálogo entre diferentes correntes políticas e da tentativa de se apresentar como uma candidatura que não estaria vinculada aos dois polos que concentram grande parte do debate eleitoral.
Em entrevista ao SBT News no início de setembro, Cury também havia criticado o que classificou como uma espécie de “religiosidade política” em torno de Lula e Jair Bolsonaro, argumentando que parte dos eleitores trataria lideranças políticas como figuras acima de críticas.
A estratégia discursiva mantém, portanto, uma linha semelhante à apresentada pelo candidato ao longo das últimas semanas: questionar a identificação política baseada exclusivamente na oposição entre lulismo e bolsonarismo e defender uma agenda que, segundo ele, possa dialogar com diferentes grupos da sociedade.
A nova declaração, porém, acrescenta um elemento importante à sua campanha: a decisão de não apoiar nem Lula nem Flávio em um eventual segundo turno, eliminando, neste momento, a possibilidade de uma aliança formal com qualquer um dos dois candidatos nesse cenário.
Com a aproximação da votação e o avanço da campanha presidencial, a posição de Cury deverá continuar inserida no debate sobre o comportamento dos candidatos que eventualmente ficarem fora da segunda etapa da eleição e sobre o destino político de seus eleitores. A definição sobre apoios, entretanto, permanece condicionada ao resultado do primeiro turno e às circunstâncias políticas que venham a se formar posteriormente.






