O senador Otto Alencar (PSD-BA) confirmou neste sábado (19) que manteve conversas telefônicas com Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, em meio às articulações relacionadas a uma proposta que pretendia ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Segundo o parlamentar, foram duas ou três conversas, realizadas entre o fim de 2024 e o início de 2025, por intermédio do celular do advogado Ciro Soares, que à época atuava para o banqueiro.
A declaração representa um esclarecimento em relação às informações que vieram a público após a Polícia Federal analisar mensagens encontradas no celular de Vorcaro. O conteúdo, revelado neste sábado, mostra que o banqueiro se referia a Otto Alencar como “conselheiro” e “comandante” em conversas com Ciro Soares. Os registros também indicam tentativas de aproximação e de agendamento de encontros entre o empresário e o senador.
Em entrevista à coluna de Milena Teixeira, Otto explicou que os contatos ocorreram depois que assumiu a presidência da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado. De acordo com a versão apresentada pelo parlamentar, o assunto tratado nas conversas estava relacionado à possibilidade de apresentação de uma emenda de autoria do senador Ciro Nogueira (PP-PI).
A proposta estava vinculada à PEC que discutia a autonomia orçamentária e financeira do Banco Central. Um dos pontos previa elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo destinado a proteger determinados depósitos e investimentos em instituições financeiras em situações previstas na regulamentação.
Otto, entretanto, afirmou que não apresentou nem incluiu a medida durante a tramitação. Segundo ele, a conversa ocorreu exclusivamente em torno da possibilidade de inclusão da proposta e não resultou em qualquer iniciativa de sua parte para levar a emenda adiante.
“O que ocorreu foi que o Ciro ligou para mim, e eu conversei com ele sobre a emenda. Nunca cogitei apresentar ou incluir essa proposta”, declarou o senador.
Conversas ocorreram por meio de advogado
Segundo o relato de Otto, os contatos não ocorreram diretamente por meio de seu próprio telefone. O senador afirmou que Ciro Soares fez as ligações utilizando o aparelho do advogado, que mantinha relação profissional com Vorcaro.
A existência de uma interlocução por meio de Soares também aparece no material analisado pela Polícia Federal. Relatórios divulgados pela imprensa apontam que o advogado funcionava como uma espécie de intermediário entre Vorcaro e diferentes autoridades, repassando mensagens, realizando ligações e informando ao banqueiro quando estava na companhia de determinadas pessoas.
Uma das mensagens analisadas pela PF, de maio de 2024, registra Soares dizendo a Vorcaro que “Otto queria falar” com ele. Após uma tentativa de ligação, o banqueiro enviou ao advogado uma mensagem na qual utilizou os termos “conselheiro” e “comandante” para se referir ao senador.
Outros diálogos divulgados pela imprensa registram novas tentativas de aproximação entre os dois. Em dezembro de 2024, por exemplo, Soares informou a Vorcaro que Otto teria feito um “movimento grande” em favor do banqueiro e que teria aguardado por ele. Os registros, contudo, não estabelecem, por si só, que o senador tenha participado de qualquer irregularidade.
Senador cita Plínio Valério para esclarecer tramitação
Ao explicar a origem da discussão sobre a proposta, Otto Alencar apontou o senador Plínio Valério (PSDB-AM), que era o relator da matéria, como uma das pessoas que poderiam esclarecer como ocorreu a tramitação da emenda.
O senador baiano reiterou que não chegou a apresentar a medida e afirmou que não cogitou incluí-la na proposta que estava sendo analisada pelo Congresso.
A emenda, conforme o relato apresentado por Otto, interessava a Vorcaro porque previa ampliar significativamente o limite de cobertura do FGC. A proposta acabou não avançando na tramitação, segundo as informações divulgadas sobre o caso.
Otto nega conversa sobre Roberto Campos Neto
Outro ponto destacado pelo senador foi a negativa de qualquer conversa com Vorcaro envolvendo Roberto Campos Neto, que presidia o Banco Central no período mencionado.
Otto afirmou que jamais tratou com o banqueiro sobre o então presidente da autoridade monetária e disse que não mantinha proximidade suficiente com Campos Neto para discutir um assunto dessa natureza.
“Eu nunca falei sobre o Campos Neto. Nunca tive intimidade com o Campos Neto para falar sobre esse assunto”, afirmou o senador.
A declaração foi dada depois de surgirem, no contexto das mensagens analisadas pela PF, referências a articulações envolvendo autoridades e integrantes dos Poderes. Até o momento, as mensagens divulgadas e as declarações dos envolvidos precisam ser diferenciadas de eventuais conclusões judiciais ou de comprovação de irregularidades. A simples menção de uma autoridade em conversas apreendidas não demonstra, isoladamente, participação em ilícitos.
Senador afirma que desconhecia problemas envolvendo o Banco Master
Otto também declarou que, no período em que ocorreram as conversas, não tinha conhecimento dos problemas que posteriormente vieram a público envolvendo o Banco Master.
A afirmação busca contextualizar o episódio no momento em que os contatos ocorreram. De acordo com o senador, a conversa sobre a ampliação da cobertura do FGC foi apresentada como uma discussão legislativa relacionada à proposta de autonomia do Banco Central, e não como uma iniciativa destinada a atender interesses particulares do banqueiro.
O caso ganhou nova dimensão após a divulgação das mensagens extraídas pela Polícia Federal, que revelaram a forma como Vorcaro se referia ao senador e as tentativas de aproximação intermediadas por Ciro Soares.
Novos elementos ampliam debate sobre relações entre autoridades e Banco Master
A confirmação de Otto Alencar acrescenta um novo elemento ao conjunto de informações que vêm sendo reveladas a partir da investigação envolvendo o Banco Master. Enquanto os registros encontrados no telefone de Vorcaro apontam para uma tentativa de aproximação com o senador, Otto apresenta uma versão segundo a qual os contatos foram pontuais e tiveram como tema específico uma proposta legislativa.
O senador também sustenta que não chegou a apresentar ou incluir a emenda que ampliaria a cobertura do FGC e nega ter tratado com Vorcaro sobre Roberto Campos Neto.
As diferentes versões e os registros apreendidos pela Polícia Federal deverão ser analisados dentro do contexto mais amplo das investigações. Até o momento, as informações divulgadas publicamente não permitem concluir, apenas a partir das mensagens ou das conversas relatadas, que Otto Alencar tenha cometido irregularidade relacionada ao Banco Master.
O episódio, entretanto, coloca novamente em evidência a circulação de interesses entre o setor financeiro e o ambiente político durante a tramitação de matérias com potencial impacto sobre instituições financeiras. A evolução das investigações e eventuais manifestações das autoridades responsáveis poderão esclarecer o alcance dos contatos e das articulações mencionadas nos documentos analisados pela Polícia Federal.






