A surdez evitável tem avançado de forma silenciosa no Brasil, impulsionada principalmente pela exposição excessiva a ruídos intensos e pelo tratamento inadequado de infecções auditivas. O fenômeno preocupa especialistas em saúde pública e ganha contornos ainda mais graves diante do comportamento de risco adotado, sobretudo, por jovens e adultos jovens.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que mais de 1 bilhão de pessoas entre 12 e 35 anos estão em risco de desenvolver perda auditiva em razão da exposição prolongada à música alta, especialmente por meio de fones de ouvido e ambientes de lazer com som amplificado.
Para o otorrinolaringologista e professor da Universidade de Brasília (UnB), André Sampaio, o crescimento da surdez evitável reflete diretamente o modo de vida contemporâneo. Segundo ele, a sociedade se tornou estruturalmente mais barulhenta, o que aumenta a exposição diária a níveis sonoros prejudiciais à saúde auditiva.
“A causa mais importante é, sem dúvida, a exposição sonora a ruídos de alta intensidade. Industrialização, aumento do número de veículos, obras urbanas e música amplificada fazem parte de uma rotina cada vez mais ruidosa. Temos observado pacientes cada vez mais jovens com queixas auditivas e alterações objetivas nos exames”, afirma o especialista.
De acordo com Sampaio, a perda auditiva nem sempre é percebida de forma imediata. Em muitos casos, os sinais surgem de maneira indireta, o que contribui para o diagnóstico tardio.
“O paciente geralmente não chega ao consultório dizendo que está perdendo a audição. Ele relata zumbido constante, dificuldade para entender a fala em ambientes com ruído ou sensação de ouvido ‘cheio’. Esses são alertas importantes que não devem ser ignorados”, explica.
Embora a legislação trabalhista brasileira estabeleça limites entre 80 e 85 decibéis para exposição ocupacional ao ruído, o médico faz um alerta importante: esses parâmetros não devem ser interpretados como sinônimo de segurança em situações recreativas.
“Não existe volume totalmente seguro quando falamos de lazer. Quanto maior a intensidade e o tempo de exposição, maior o risco de dano auditivo. A recomendação é clara: reduzir o volume e limitar a duração do uso”, destaca.
A fonoaudióloga Karla Lima de Queiroz, da clínica Aural Soluções Auditivas, na Paraíba, reforça que mudanças simples de hábito podem ter impacto significativo na preservação da audição. Ela chama atenção para a chamada regra 60/60, recomendada pela OMS.
“A orientação é utilizar fones de ouvido com até 60% do volume máximo por, no máximo, 60 minutos seguidos, sempre fazendo pausas de 10 a 15 minutos. Essa pausa é fundamental para que as células do ouvido interno se recuperem da fadiga metabólica”, explica.
Segundo a especialista, o dano auditivo é cumulativo e está diretamente relacionado à intensidade do som multiplicada pelo tempo de exposição. “Muitas pessoas subestimam o risco porque o prejuízo não é imediato, mas os efeitos aparecem ao longo dos anos”, alerta.
Além de shows, festas e obras urbanas, situações aparentemente inofensivas do cotidiano também contribuem para a surdez evitável. O uso prolongado de fones de ouvido no transporte público, eletrodomésticos ruidosos, academias com som elevado e até brinquedos infantis barulhentos estão entre os fatores de risco.
Especialistas reforçam que a prevenção ainda é a principal estratégia para conter o avanço da surdez evitável. Reduzir a exposição ao ruído, respeitar intervalos de descanso auditivo, buscar atendimento médico ao primeiro sinal de desconforto e tratar infecções de ouvido de forma adequada são medidas essenciais para preservar a audição e evitar danos irreversíveis.





