Em meio a um intenso jogo de forças políticas, a Câmara dos Deputados articula a indicação de um nome ligado ao Centrão para assumir a relatoria da proposta que trata do fim da escala de trabalho 6×1. A movimentação é vista como uma tentativa de a Casa assumir maior protagonismo no debate e imprimir sua própria marca ao texto, ainda em fase inicial de tramitação.
A iniciativa, no entanto, contraria a estratégia do Palácio do Planalto, que defendia a escolha da deputada Erika Hilton (PSol-SP) como relatora. Considerada uma das idealizadoras da proposta, a parlamentar é vista por integrantes do governo como um nome capaz de conduzir o debate de forma alinhada às pautas históricas da base progressista e às diretrizes do Executivo.
A discussão sobre os rumos da relatoria avançou após uma reunião remota entre o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Leur Lomanto Júnior (União-BA). No encontro virtual, os dois dirigentes trataram dos próximos passos da proposta e buscaram alinhar procedimentos para evitar novos desgastes institucionais.
Ficou definido que o nome do relator será anunciado na manhã da próxima terça-feira (24/2). Além disso, a CCJ deverá organizar um calendário de audiências públicas, com o objetivo de ouvir diferentes setores diretamente impactados pela eventual mudança na jornada de trabalho. Entre os convidados, devem figurar representantes do empresariado, sindicatos, especialistas em direito do trabalho e economistas, numa tentativa de ampliar o diálogo e conferir legitimidade ao processo legislativo.
Nos bastidores, a escolha de um relator ligado ao Centrão é interpretada como um movimento para equilibrar pressões políticas e reduzir resistências internas à proposta. Parlamentares desse bloco defendem que qualquer alteração na escala de trabalho seja debatida com cautela, levando em conta os impactos econômicos e a realidade de diferentes setores produtivos.
Por outro lado, ministros e assessores próximos ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva avaliam que a condução do tema pela deputada Erika Hilton daria maior coesão política ao projeto. Na visão desse grupo, a parlamentar reúne capital político e simbólico para dialogar com movimentos sociais e, ao mesmo tempo, negociar ajustes com o Congresso.
Parte da equipe presidencial também estuda uma alternativa estratégica: o envio de um projeto do próprio Executivo que unifique as diversas propostas atualmente em tramitação sobre a jornada de trabalho. A medida permitiria ao governo maior controle sobre o conteúdo final do texto, sem necessariamente retirar de Erika Hilton a possibilidade de relatar a matéria, preservando sua centralidade no debate.
Enquanto as articulações seguem nos bastidores, o tema do fim da escala 6×1 ganha espaço na agenda política nacional e promete gerar embates entre Executivo, Legislativo e setores econômicos. A definição da relatoria, prevista para os próximos dias, será um indicativo claro de quem ditará o ritmo e o tom das discussões sobre uma das pautas trabalhistas mais sensíveis do momento.





