A proximidade das eleições de 2026 levou a Polícia Federal a reforçar a atenção das forças de segurança para a circulação de grandes quantias em dinheiro vivo durante abordagens realizadas no período que antecede a votação. A orientação consta de uma cartilha elaborada pela corporação e encaminhada nesta quinta-feira (24) ao Ministério da Justiça, com o objetivo de orientar policiais militares, civis e demais agentes que atuarão na segurança do processo eleitoral.
De acordo com as orientações, a simples posse ou transporte de grandes valores em espécie não configura crime por si só. A recomendação da PF é que, diante de circunstâncias consideradas suspeitas, os agentes procurem esclarecer a origem dos recursos, a finalidade do transporte e o destino pretendido para o dinheiro.
A preocupação ganha maior relevância no período eleitoral porque a movimentação de grandes volumes de dinheiro pode, dependendo do contexto e de outros elementos encontrados durante uma abordagem, estar relacionada a possíveis crimes eleitorais, entre eles a compra de votos e o financiamento irregular de campanhas.
Compra de votos entre as principais ocorrências
Segundo a cartilha, a compra de votos aparece como o segundo crime eleitoral mais frequente identificado pela Polícia Federal, atrás apenas da propaganda irregular realizada no dia da votação. Nas eleições de 2022 e 2024, a corporação aponta que a prática representou aproximadamente 18% das ocorrências registradas pela instituição.
A legislação eleitoral considera crime oferecer, prometer ou entregar vantagem pessoal ao eleitor com o objetivo de obter seu voto. Por isso, a circulação de dinheiro em espécie nas proximidades da votação passa a receber atenção especial quando acompanhada de outros indícios que possam apontar para uma eventual finalidade eleitoral ilícita.
A PF destaca que o dinheiro, isoladamente, não é suficiente para caracterizar uma irregularidade. O contexto da abordagem e os demais elementos encontrados é que podem determinar a necessidade de aprofundamento da apuração.
O que pode chamar a atenção durante uma abordagem
A cartilha apresenta situações que, segundo a orientação da Polícia Federal, podem justificar uma averiguação mais detalhada. Entre os elementos citados estão valores escondidos em compartimentos, versões contraditórias ou pouco convincentes sobre a origem dos recursos, dificuldade ou recusa em explicar a posse do dinheiro e a existência de materiais relacionados à atividade eleitoral.
Também podem chamar a atenção das autoridades materiais como listas de eleitores, envelopes nominais ou outros documentos que, associados à grande quantidade de dinheiro, possam ajudar a esclarecer a finalidade dos recursos.
Nessas circunstâncias, a orientação é encaminhar a ocorrência para os procedimentos de investigação cabíveis, permitindo que a origem e a destinação do dinheiro sejam analisadas de maneira mais aprofundada.
A medida busca evitar que uma abordagem seja interpretada automaticamente como prova de crime. A existência de dinheiro em espécie, por si só, não estabelece responsabilidade criminal. Eventuais irregularidades precisam ser apuradas a partir do conjunto de circunstâncias e das provas reunidas.
Atenção redobrada no período eleitoral
A recomendação não representa uma preocupação inédita da Polícia Federal. Durante as eleições municipais de 2024, a corporação já havia chamado atenção para a circulação de grandes quantias em espécie no período eleitoral.
Na ocasião, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, afirmou que valores elevados transportados em dinheiro vivo deveriam ser analisados em conjunto com outros elementos encontrados durante as diligências, especialmente porque esse tipo de movimentação pode ser considerado incomum em determinados contextos durante uma eleição.
A experiência acumulada nas últimas eleições contribuiu para que a orientação fosse incorporada de maneira mais detalhada às instruções destinadas aos agentes que estarão envolvidos na fiscalização e na segurança das eleições de 2026.
Milhões de reais apreendidos em eleições anteriores
A preocupação das autoridades também está relacionada ao histórico de apreensões realizadas durante períodos eleitorais.
Nas eleições de 2024, a Polícia Federal informou ter encerrado o processo eleitoral com R$ 24,1 milhões em dinheiro em espécie apreendidos em diferentes operações e ocorrências relacionadas à repressão de crimes eleitorais.
Já em 2026, novas apreensões envolvendo grandes quantias de dinheiro vivo vêm sendo registradas antes mesmo da votação.
Em 22 de setembro, por exemplo, a Polícia Federal apreendeu R$ 500 mil em espécie com um candidato em Florianópolis, em Santa Catarina. Segundo a corporação, o dinheiro havia sido previamente provisionado para saque. As circunstâncias relacionadas à origem e à destinação dos recursos foram encaminhadas para apuração pela Justiça Eleitoral, sem conclusão, até aquele momento, sobre eventual prática de crime ou responsabilidade das pessoas envolvidas.
Em outro caso, divulgado pela PF nesta quinta-feira (24), um homem foi preso em flagrante em Manaus durante uma ação de combate a crimes eleitorais. Aproximadamente R$ 1 milhão em espécie foi apreendido, além de uma arma de fogo. A investigação teve início após uma denúncia sobre saques de valores elevados, e o dinheiro será submetido à apuração quanto à origem e à destinação.
Também no Pará, em 16 de setembro, a Polícia Federal apreendeu R$ 2,5 milhões em espécie após a retirada do dinheiro de uma agência bancária em Belém. Segundo a corporação, a investigação apura suspeitas de desvio de recursos públicos e possível utilização dos valores para financiamento irregular de campanha eleitoral.
Dinheiro vivo sob escrutínio das autoridades
Outro caso investigado pela PF ocorreu no Rio Grande do Norte, onde uma operação deflagrada em 14 de setembro apreendeu mais de R$ 1,5 milhão em espécie. A investigação apura possíveis crimes de falsidade ideológica eleitoral e utilização de recursos financeiros não declarados em atividades de campanha.
Em São Paulo, uma investigação iniciada a partir de informações relacionadas à prevenção à lavagem de dinheiro identificou provisionamentos de saques que totalizaram R$ 1 milhão em espécie durante o período eleitoral. A operação busca esclarecer a origem, a circulação e a destinação dos recursos e verificar eventual utilização em desacordo com as normas eleitorais.
Os episódios ajudam a explicar por que a Polícia Federal decidiu reforçar a orientação aos agentes de segurança. A intenção é que abordagens realizadas nos dias que antecedem a votação considerem não apenas o valor transportado, mas também as circunstâncias em que o dinheiro foi encontrado e sua eventual relação com outras evidências.
Fiscalização busca preservar a regularidade do processo eleitoral
Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro, a atuação das forças de segurança entra em uma fase de maior atenção. A cartilha elaborada pela Polícia Federal pretende padronizar procedimentos e auxiliar os agentes na identificação de situações que possam exigir encaminhamento às autoridades competentes.
A orientação ocorre em um cenário no qual diferentes investigações eleitorais já estão em andamento em várias regiões do país. Nesta quinta-feira, por exemplo, a PF também realizou operações relacionadas a suspeitas de financiamento eleitoral irregular, compra de votos, coação eleitoral e outras possíveis infrações.
Nesse contexto, a circulação de grandes quantias em dinheiro passa a ser observada com atenção redobrada, sobretudo quando associada a outros elementos capazes de indicar uma possível finalidade eleitoral ilícita.
A recomendação, entretanto, estabelece uma distinção importante: ter ou transportar dinheiro em espécie não é, por si só, evidência de crime. O que pode justificar uma investigação é a combinação entre a movimentação financeira e circunstâncias que levantem dúvidas sobre sua origem, finalidade ou destinação.
À medida que a data da votação se aproxima, a Polícia Federal pretende ampliar a capacidade de identificação de eventuais práticas ilícitas, preservando a segurança e a regularidade do processo eleitoral e permitindo que suspeitas sejam submetidas à apuração formal pelas autoridades competentes.






