Aquele característico som de “tec-tec” das unhas batendo no piso enquanto o cachorro caminha pela casa pode parecer apenas um detalhe da rotina, mas, segundo especialistas, também funciona como um importante sinal de alerta para os tutores. Quando as garras ultrapassam o nível dos coxins, as chamadas “almofadinhas” das patas , o animal pode deixar de apoiar corretamente o pé no chão, alterando a forma de caminhar e aumentando a sobrecarga sobre articulações.
De acordo com a veterinária Fernanda Maris, o barulho produzido pelas unhas em contato com pisos rígidos indica que o crescimento da garra já merece atenção. O problema vai muito além da estética. Com a unha excessivamente comprida, o animal pode acabar pisando sobre a própria garra em vez de distribuir o peso adequadamente pelos coxins. A alteração pode interferir na postura, na marcha e no conforto do pet e, em situações de manutenção inadequada e prolongada, contribuir para problemas articulares.
O cuidado com as unhas, portanto, deve fazer parte da rotina de higiene e bem-estar dos animais. Esperar que elas fiquem muito compridas para só então realizar o corte pode tornar o procedimento mais complicado e aumentar o risco de acidentes.
Quanto mais tempo sem cortar, maior pode ser a dificuldade
Um dos principais desafios para quem deixa as unhas crescerem por períodos prolongados é que a estrutura vascular localizada no interior da garra também pode avançar. Essa região, conhecida popularmente como “veia”, contém vasos sanguíneos e terminações nervosas. Por isso, quanto maior a unha, maior pode ser a dificuldade de identificar até onde é seguro realizar o corte.
A situação exige ainda mais cuidado em animais com unhas escuras, nas quais não é possível visualizar claramente a estrutura interna. Nesses casos, a orientação é fazer cortes pequenos e progressivos, retirando aproximadamente um a dois milímetros por vez e observando atentamente a aparência da unha.
Fernanda Maris chama atenção para uma mudança na textura da garra que pode ajudar o tutor a identificar o momento de interromper o corte. Segundo a veterinária, quando a região começa a apresentar uma aparência mais macia, semelhante a uma textura gelatinosa, é necessário parar.
Essa observação é importante porque avançar demais pode atingir os vasos sanguíneos e provocar sangramento e dor.
O quinto dedo dos cães também precisa de atenção
Outro ponto que frequentemente passa despercebido pelos tutores é o chamado quinto dedo, ou ergô, presente em alguns cães. Diferentemente das unhas que entram em contato com o chão durante a caminhada, essa garra pode não sofrer desgaste natural.
Como não há o mesmo atrito com o solo, ela pode continuar crescendo e se curvar progressivamente. Em casos de crescimento excessivo, a unha pode chegar a encostar na própria pele e até provocar ferimentos.
Por isso, mesmo quando as demais unhas parecem estar em um comprimento adequado, é importante verificar individualmente todas as garras do animal.
Nos gatos, a atenção também deve ser redobrada. Embora os arranhadores sejam importantes aliados para o desgaste natural das garras, eles não necessariamente substituem a avaliação periódica feita pelo tutor.
Idade, peso e rotina influenciam a necessidade de corte
Não existe uma única frequência de corte que possa ser aplicada a todos os animais. A necessidade de manutenção depende de diferentes fatores, entre eles o tamanho do pet, idade, peso, nível de atividade física, rotina de passeios e características do piso onde ele vive.
Cães pequenos, por exemplo, podem não exercer peso ou pressão suficientes para desgastar naturalmente as pontas das unhas durante a caminhada. Consequentemente, esses animais podem precisar de uma atenção mais frequente por parte dos tutores.
A rotina de passeios também interfere diretamente nesse processo. Animais que caminham regularmente sobre superfícies adequadas podem apresentar algum desgaste natural das unhas, enquanto aqueles que passam a maior parte do tempo dentro de casa, especialmente sobre pisos muito lisos, podem depender mais da manutenção manual.
Nos gatos, os arranhadores cumprem uma função importante. Além de contribuir para o comportamento natural da espécie, eles ajudam no desgaste das garras. No entanto, a presença de um arranhador em casa não significa que o tutor possa deixar de verificar regularmente as unhas.
Animais idosos, obesos ou debilitados podem apresentar menor frequência de uso desses equipamentos. Nesses casos, a observação precisa ser ainda mais cuidadosa, principalmente porque alterações de mobilidade podem dificultar a manutenção natural das garras.
Cortador adequado reduz o risco de acidentes
Para quem pretende fazer a manutenção em casa, a escolha do instrumento é outro ponto fundamental. O recomendado é utilizar um alicate ou cortador específico para animais, adequado ao tamanho e ao formato das garras.
Ferramentas inadequadas podem aumentar a pressão exercida sobre a unha e favorecer rachaduras ou fissuras. O cortador também precisa estar bem afiado para realizar um corte preciso, sem esmagar a estrutura.
Antes de iniciar o procedimento, o ideal é escolher um ambiente tranquilo, com boa iluminação e sem excesso de estímulos. O animal deve estar confortável e, sempre que possível, acostumado gradualmente ao toque nas patas.
Essa adaptação pode começar antes mesmo do primeiro corte. Tocar delicadamente nas patas, manipular os dedos por alguns segundos e associar o procedimento a experiências positivas pode ajudar o pet a aceitar melhor a rotina de cuidados.
E se a unha sangrar?
Mesmo com todos os cuidados, acidentes podem acontecer. Se o corte atingir um vaso sanguíneo, a primeira recomendação é manter a calma.
O comportamento do tutor influencia diretamente a reação do animal. Gritos, movimentos bruscos e desespero podem deixar o pet ainda mais agitado, dificultando o controle da pata e o atendimento da região lesionada.
O tutor deve manter o animal seguro e procurar controlar o sangramento. Se o sangramento for intenso, persistente ou se houver dúvida sobre a extensão do ferimento, é importante procurar atendimento veterinário.
Também é fundamental não transformar um acidente isolado em uma experiência traumática para o animal. A manutenção das unhas precisa ser construída como parte de uma rotina de cuidados, e não como um momento de medo ou contenção excessiva.
Observar as patas deve fazer parte da rotina
Mais do que esperar pelo “tec-tec” no piso, os tutores podem incorporar a inspeção das patas à rotina de cuidados. Verificar o comprimento das unhas, observar se há rachaduras, alterações de formato, ferimentos ou sinais de desconforto ajuda a identificar problemas antes que eles se agravem.
A atenção deve ser ainda maior em animais idosos, com excesso de peso, pouca mobilidade ou que tenham dificuldade para utilizar arranhadores e realizar atividades que promovam o desgaste natural das garras.
O corte correto das unhas é um cuidado simples, mas que exige conhecimento, paciência e atenção aos limites de cada animal. Quando realizado de maneira adequada, contribui para preservar o conforto durante a caminhada e reduzir o risco de ferimentos associados ao crescimento excessivo das garras.
Assim, aquele pequeno “tec-tec” que ecoa pelo piso da casa não precisa ser encarado apenas como um ruído cotidiano. Ele pode ser o lembrete de que chegou o momento de olhar com mais atenção para as patas do pet e verificar se as unhas estão no comprimento adequado.






