Saúde mental e desastres ambientais: o sofrimento que não aparece nas estatísticas Quando falamos em desastres ambientais, ainda é comum imaginarmos grandes terremotos, furacões ou tsunamis que devastam países e ganham repercussão mundial.
No entanto, no Brasil, os desastres costumam ter outra configuração, eles aparecem de forma mais silenciosa, muitas vezes associados à desigualdade social, à falta de planejamento urbano, à precarização das políticas públicas e à naturalização de riscos que poderiam ser evitados.
Existe um sofrimento que não aparece nos noticiários, ele não é medido em números oficiais, não aparece em relatórios técnicos e raramente entra no debate público. É o sofrimento emocional das pessoas que vivem em contextos de insegurança ambiental constante, que convivem com o medo, com a imprevisibilidade e com a sensação de que poderiam estar mais protegidas.
A Psicologia tem um campo específico que se dedica a compreender essas relações: a Psicologia Ambiental. Ainda pouco conhecida fora do meio acadêmico, essa área estuda como os ambientes em que vivemos influenciam nossas emoções, nossos
comportamentos, nosso senso de segurança e nossa qualidade de vida. Não se trata apenas de natureza ou ecologia no sentido tradicional, trata-se de compreender que o ambiente também é um organizador da experiência emocional humana.
O Conselho Federal de Psicologia já vem chamando atenção para a necessidade de ampliar o debate sobre os impactos psicossociais das emergências e dos desastres, destacando que a saúde mental precisa ser considerada parte fundamental das respostas sociais a essas situações, não apenas como cuidado posterior, mas também como parte das estratégias de prevenção e fortalecimento comunitário.
Isso nos convida a uma reflexão importante: saúde mental também depende das condições concretas de vida. Não existe promoção real de saúde mental em contextosonde o medo faz parte da rotina, onde as pessoas sentem que vivem sob risco ou onde existe a percepção de abandono estrutural.
Outro aspecto pouco discutido é que desastres ambientais não produzem apenas perdas materiais, eles também podem produzir rupturas simbólicas. Muitas pessoa desenvolvem uma relação afetiva profunda com os lugares onde vivem, não são apenas
casas ou ruas, são espaços de memória, identidade e pertencimento. Quando esses espaços se tornam associados à insegurança, algo também se rompe na relação subjetiva com o território. E quando ocorre situações que ceifam a vida de pessoas, o processo de enlutamento se torna ainda mais pesaroso.
A Psicologia Ambiental mostra que o ambiente não é apenas cenário da vida humana. Ele é parte ativa da experiência psicológica, cidades desorganizadas, espaços urbanos negligenciados e territórios marcados por vulnerabilidade tendem a produzir maior sobrecarga emocional em seus moradores.
Nesse cenário, a Psicologia passa a ter um papel que ultrapassa o consultório, seu compromisso também envolve contribuir para reflexões sobre qualidade de vida, políticas públicas e condições sociais que impactam diretamente o sofrimento humano.
O CFP tem reforçado que a atuação da Psicologia em contextos de emergências e desastres envolve não apenas o atendimento clínico, mas também a produção de conhecimento, a atuação comunitária e a defesa de condições dignas de existência. Isso significa reconhecer que sofrimento psíquico também pode ser produzido por contextos coletivos e não apenas por histórias individuais.
Talvez um dos maiores desafios do nosso tempo seja justamente ampliar nossa compreensão de saúde mental para além do indivíduo. Precisamos falar mais sobre como os contextos em que vivemos afetam nossa subjetividade, nossas emoções e nossa
capacidade de lidar com a vida. A saúde mental não depende apenas do que acontece dentro de nós ela também depende do mundo que existe ao nosso redor. E cuidar desse mundo também é uma forma de cuidar das pesso .






