Flamengo e Fluminense vão aproveitar a visibilidade de um dos maiores clássicos do futebol brasileiro para ampliar o debate sobre a regulamentação das empresas de apostas esportivas no país. Neste domingo (11/10), às 17h30, as duas equipes entrarão em campo no Maracanã, pela 30ª rodada do Campeonato Brasileiro, com a mensagem “Proibir não é proteger” estampada nos uniformes, em uma iniciativa articulada pelas casas de apostas Superbet e Betano.
A partida terá mando de campo do Flamengo, mas a mobilização envolverá os dois clubes cariocas, que pretendem utilizar a repercussão do confronto para apresentar ao público o posicionamento das empresas patrocinadoras em relação à possibilidade de proibição das plataformas de apostas. A iniciativa também coloca em evidência um tema que ultrapassa as quatro linhas e envolve questões econômicas, sociais, regulatórias e de saúde pública.
O anúncio foi feito pelo presidente do Fluminense, Mattheus Montenegro, durante entrevista à FluTV. Na ocasião, o dirigente explicou que houve um entendimento entre as duas patrocinadoras para que a campanha fosse apresentada de maneira conjunta durante o clássico, reforçando a mensagem em um dos eventos esportivos de maior visibilidade do calendário nacional.
“No fim de semana, a gente vai entrar com uma camisa um pouco diferente. Houve um alinhamento entre a Superbet e a Betano para que Flamengo e Fluminense joguem com a campanha ‘Proibir não é proteger’ nos uniformes”, afirmou Montenegro.
A ação representa uma estratégia de comunicação que busca aproveitar o alcance do futebol para levar ao debate público uma discussão cada vez mais presente no Brasil: como enfrentar os prejuízos associados ao jogo problemático sem abrir mão dos mecanismos de fiscalização e controle das atividades de apostas.
Presidente do Fluminense destaca importância da regulamentação
Ao comentar a campanha, Mattheus Montenegro reconheceu que o crescimento das apostas esportivas trouxe consequências preocupantes para parte da população. Segundo o dirigente, existem famílias que enfrentaram dificuldades financeiras e acabaram acumulando dívidas em decorrência do envolvimento com essas plataformas.
A declaração evidencia que a discussão não se limita aos interesses comerciais das empresas ou à presença de patrocinadores nos uniformes dos clubes. O avanço das apostas também levanta questionamentos sobre endividamento, comportamento compulsivo, publicidade, proteção de consumidores vulneráveis e responsabilidade das plataformas que operam nesse mercado.
Na avaliação apresentada pelo presidente tricolor, a regulamentação seria um instrumento para permitir maior acompanhamento da atividade, estabelecer obrigações para as empresas e ampliar a capacidade de fiscalização por parte das autoridades.
“O objetivo é levar para o debate público que todo mundo tem plena ciência de que, em razão das bets, algumas famílias foram muito prejudicadas e ficaram endividadas. Isso é um problema efetivamente de saúde, um problema social”, declarou.
Montenegro acrescentou que, na visão defendida pelas empresas envolvidas na campanha, a existência de regras e mecanismos de controle seria fundamental para enfrentar os riscos associados ao setor. Ele argumentou que a atuação fora do mercado regulado dificulta a fiscalização e permite que plataformas funcionem sem cumprir as mesmas exigências aplicáveis aos operadores autorizados.
“A mensagem que eles querem levar é que quando você tem uma atividade regulada você consegue ter um controle. A gente vê a quantidade de sites que existem que não regulados, não pagam outorga, não pagam tributos e não tem nenhum controle. A melhor forma de você proteger é ter o controle. E quando sai de um mercado regulado, não existe o controle”, explicou o presidente do Fluminense.
A manifestação resume o argumento central da campanha: em vez de uma proibição ampla, os defensores dessa posição sustentam que a regulamentação, acompanhada de fiscalização efetiva, pode oferecer instrumentos para coibir irregularidades e responsabilizar empresas que descumpram as normas.
Esse entendimento, entretanto, faz parte do posicionamento apresentado pelas patrocinadoras e não elimina a necessidade de avaliar a efetividade dos mecanismos regulatórios, a dimensão dos danos relacionados ao jogo problemático e as medidas necessárias para proteger os consumidores.
Debate envolve saúde pública e proteção das famílias
A discussão sobre as apostas esportivas ganhou novas dimensões à medida que as plataformas passaram a ocupar espaço expressivo na publicidade, no entretenimento digital e no financiamento de diferentes modalidades esportivas. No futebol, a presença dessas empresas tornou-se particularmente visível, com marcas estampadas em camisas, painéis publicitários e campanhas dirigidas aos torcedores.
Ao mesmo tempo, o crescimento do setor ampliou a preocupação com os impactos do jogo excessivo sobre a vida financeira e emocional de determinados usuários. O comprometimento da renda familiar, o acúmulo de dívidas e a dificuldade de interromper o comportamento de apostar estão entre as questões que exigem atenção de autoridades, profissionais de saúde e entidades de defesa do consumidor.
Nesse cenário, a regulamentação é frequentemente apresentada como uma das ferramentas possíveis para estabelecer limites, fiscalizar operadores e criar condições para a responsabilização das empresas. Entretanto, a existência de regras, por si só, não garante a eliminação dos riscos. A efetividade das medidas depende da fiscalização, da prevenção, do acesso à informação e da disponibilidade de suporte para pessoas que desenvolvem problemas relacionados às apostas.
A discussão também envolve a atuação de plataformas que operam sem autorização e a necessidade de impedir que consumidores sejam expostos a serviços irregulares, práticas abusivas ou mecanismos de publicidade que estimulem comportamentos prejudiciais.
Por isso, a mensagem escolhida para o clássico procura associar a defesa do mercado regulado à ideia de proteção social. A campanha pretende sustentar que o controle institucional pode ser mais eficaz do que simplesmente retirar a atividade do ambiente legal, embora essa avaliação dependa dos resultados concretos das políticas adotadas e do funcionamento dos mecanismos de fiscalização.
Flamengo já havia exibido a mensagem em partida contra o Santos
A iniciativa não será a primeira aparição da campanha em campo. Na quarta-feira (8/10), o Flamengo já entrou em campo diante do Santos com o uniforme exibindo a frase “Proibir não é proteger”.
A presença da mensagem na partida anterior indica que a mobilização vem sendo apresentada de forma gradual, utilizando jogos de grande repercussão para ampliar a exposição do tema. Agora, com a participação do Fluminense, a campanha ganhará uma dimensão conjunta no clássico deste domingo, reforçando a articulação entre as empresas patrocinadoras dos dois clubes.
A escolha do Fla-Flu também amplia o alcance da iniciativa em razão da tradição do confronto, da rivalidade entre as equipes e da atenção que o duelo costuma despertar entre torcedores e veículos de comunicação. A expectativa é que a mensagem estampada nos uniformes ultrapasse o público presente no Maracanã e alcance milhões de pessoas por meio das transmissões esportivas e das plataformas digitais.
A estratégia evidencia como o futebol se tornou um espaço importante para a divulgação de pautas comerciais e institucionais. Ao mesmo tempo, a presença de patrocinadores ligados às apostas mantém em destaque a discussão sobre os limites da publicidade, a responsabilidade dos clubes e a necessidade de conciliar receitas esportivas com a proteção dos torcedores.
Clássico reúne futebol e discussão sobre o futuro das apostas no Brasil
Dentro de campo, Flamengo e Fluminense terão um compromisso importante pela 30ª rodada do Campeonato Brasileiro. Fora das quatro linhas, porém, o confronto também servirá de palco para uma discussão que envolve interesses econômicos, políticas públicas e consequências sociais.
A campanha “Proibir não é proteger” representa a posição defendida pelas patrocinadoras em favor da manutenção de um mercado regulamentado e sujeito a mecanismos de controle. O argumento apresentado por Mattheus Montenegro é que a fiscalização de operadores autorizados pode contribuir para combater irregularidades e oferecer instrumentos de proteção aos consumidores.
O debate, contudo, permanece mais amplo do que a mensagem estampada nas camisas. A proteção das famílias exige atenção aos efeitos do jogo problemático, medidas de prevenção ao endividamento, fiscalização das plataformas e ações de apoio às pessoas afetadas. Também exige transparência sobre a atuação das empresas e avaliação dos resultados das regras estabelecidas para o setor.
Assim, o Fla-Flu deste domingo não terá apenas a tradicional disputa por um resultado positivo no Campeonato Brasileiro. O clássico também levará ao centro das atenções uma discussão sobre a maneira como o país deve lidar com o crescimento das apostas esportivas e sobre quais instrumentos são mais adequados para conciliar a fiscalização do mercado, a atividade econômica e a proteção da sociedade.
Com a frase “Proibir não é proteger” nos uniformes, Flamengo e Fluminense darão visibilidade a um posicionamento que busca influenciar o debate público sobre o tema. A repercussão da iniciativa deverá acompanhar o alcance do próprio clássico, reforçando a presença das apostas esportivas entre os assuntos que hoje conectam futebol, economia, saúde e responsabilidade social.






