Uma proposta de colaboração premiada apresentada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master, traz acusações sobre supostos pagamentos mensais de R$ 3 milhões que, segundo o relato atribuído a ele, seriam destinados ao grupo político do senador Jaques Wagner (PT) na Bahia. As informações foram divulgadas nesta sexta-feira (25) pela jornalista Natália Portinari, do UOL, em reportagem que também contou com apuração de Fabio Serapião e Cézar Feitoza.
O conteúdo, porém, envolve uma ressalva central: a proposta de colaboração não foi aceita pela Polícia Federal (PF) nem pela Procuradoria-Geral da República (PGR). Segundo as informações publicadas pelo UOL, as instituições avaliaram que não havia elementos suficientes de corroboração para validar os relatos apresentados pelo ex-banqueiro.
Dessa forma, as afirmações atribuídas a Vorcaro permanecem no campo de alegações apresentadas em uma tentativa de acordo de colaboração, e não constituem, por si só, comprovação dos supostos pagamentos ou da participação de pessoas mencionadas.
Relato teria origem em informação repassada por ex-sócio
Segundo a reportagem, Vorcaro afirmou que não teria presenciado diretamente os supostos pagamentos relacionados ao grupo político baiano. O ex-banqueiro declarou ter tomado conhecimento da operação por meio de Augusto Lima, empresário que foi seu ex-sócio no Banco Master e que mantém relações empresariais ligadas ao segmento do crédito consignado.
Lima, entretanto, nega a acusação.
A diferença entre conhecimento direto e informação recebida de terceiros é um dos pontos relevantes para a compreensão do caso. No próprio relato apresentado na proposta de colaboração, Vorcaro não teria indicado ter testemunhado pessoalmente a entrega dos valores, atribuindo a origem das informações ao ex-sócio.
Como funcionaria o suposto esquema, segundo a versão apresentada
De acordo com a proposta descrita pelo UOL, dos R$ 3 milhões que seriam pagos mensalmente, aproximadamente R$ 2 milhões teriam origem em um contrato envolvendo o Banco Master e a empresa PKL One, relacionada à exploração do Credcesta, modalidade de cartão de crédito consignado voltada a servidores públicos.
O R$ 1 milhão restante, segundo o relato atribuído a Vorcaro, seria entregue em espécie.
A narrativa apresentada também aponta para uma suposta participação oculta de Jaques Wagner na estrutura. Essa afirmação, contudo, integra o conjunto de acusações feitas pelo ex-banqueiro e não foi acompanhada, segundo as informações divulgadas, de elementos considerados suficientes pela PF e pela PGR para sustentar uma colaboração premiada.
A PKL One aparece em outras reportagens sobre as relações empresariais envolvendo o Banco Master e o Credcesta. O UOL já havia relatado que a empresa está ligada à operação do cartão consignado e que sua estrutura societária envolve fundos de investimento.
Relação entre Wagner, Augusto Lima e o Credcesta
A relação entre Jaques Wagner e Augusto Lima já havia sido objeto de apurações e reportagens antes da divulgação da nova acusação.
Segundo informações publicadas pelo UOL, os dois se conheceram em 2017, quando Wagner ocupava o cargo de secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia e participou de tratativas relacionadas à venda da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), responsável pela rede Cesta do Povo.
Posteriormente, Lima passou a integrar a estrutura societária do banco que viria a se transformar no Banco Master. O empresário também esteve relacionado à expansão do Credcesta, produto de crédito consignado que se tornou uma das principais operações do grupo financeiro.
A conexão empresarial ganhou maior relevância após o avanço das investigações relacionadas ao Banco Master e à Operação Compliance Zero, que passou a examinar diferentes negócios, contratos e relações entre empresários e agentes públicos.
Wagner já negou recebimento de propina
Jaques Wagner nega ter recebido propina ou qualquer vantagem indevida relacionada ao Banco Master.
Em declaração divulgada anteriormente, o senador afirmou estar tranquilo em relação às acusações e negou ter recebido dinheiro do banco ou de Augusto Lima. Wagner também afirmou que sua relação com Daniel Vorcaro teria sido limitada a poucos encontros.
Em julho, a Folha de S.Paulo informou que Wagner havia sido intimado pela Polícia Federal para prestar depoimento no âmbito das investigações relacionadas ao caso Master. A apuração envolve suspeitas sobre pagamentos e vantagens que, segundo a investigação, poderiam estar relacionados ao entorno do senador.
PF e PGR não aceitaram a colaboração
A rejeição da proposta de colaboração é um elemento fundamental para contextualizar a denúncia.
Conforme a reportagem do UOL, a PF e a PGR consideraram insuficientes os elementos apresentados por Vorcaro para corroborar suas afirmações. O fato de uma acusação constar de uma proposta de delação não significa que ela tenha sido confirmada pelas autoridades responsáveis pela análise do acordo.
A situação também diferencia o conteúdo da proposta de uma eventual conclusão judicial. Até o momento, a informação divulgada trata de alegações apresentadas pelo ex-banqueiro em uma tentativa de colaboração que não prosperou.
O próprio histórico recente do caso mostra que outras afirmações atribuídas a Vorcaro também passaram por questionamentos relacionados à ausência de provas independentes. Reportagem anterior do UOL sobre o Credcesta em São Paulo, por exemplo, registrou que tentativas de colaboração foram rejeitadas pela PF e pela PGR por ausência de fatos novos e de provas suficientes.
Caso Master amplia pressão sobre cenário político baiano
A nova revelação acrescenta mais um capítulo às investigações envolvendo o Banco Master e amplia a repercussão política do caso na Bahia.
O episódio reúne relações empresariais, contratos envolvendo crédito consignado, antigos vínculos entre empresários e agentes públicos e investigações conduzidas por diferentes órgãos. A presença de nomes de destaque da política baiana no material investigativo tem provocado repercussões no cenário estadual, especialmente em um período de intensa movimentação política.
Além das acusações envolvendo o grupo ligado a Wagner, outras reportagens também apontaram relações entre o Banco Master e diferentes atores políticos. O próprio UOL publicou informações sobre pagamentos realizados pelo banco a empresas relacionadas a políticos e empresários, ressaltando que a existência de pagamentos, por si só, não comprova finalidade ilícita.
Acusação ainda depende de comprovação
O ponto central da nova informação é, portanto, a existência de uma acusação feita por Daniel Vorcaro dentro de uma proposta de colaboração premiada que não foi aceita pelas autoridades.
O ex-banqueiro teria relatado um suposto fluxo mensal de R$ 3 milhões relacionado ao grupo político de Jaques Wagner, dividido, segundo sua versão, entre pagamentos associados a um contrato envolvendo o Master e a PKL One e valores que seriam entregues em espécie.
Entretanto, o próprio relato, conforme divulgado, não teria sido baseado em presenciamento direto dos pagamentos por Vorcaro. A informação teria sido repassada a ele por Augusto Lima, que nega a acusação. Além disso, PF e PGR não aceitaram a proposta de colaboração por considerarem insuficientes os elementos de corroboração apresentados.
Assim, a acusação deverá ser analisada no contexto mais amplo das investigações sobre o Banco Master, sem que o conteúdo da proposta, isoladamente, seja tratado como comprovação dos supostos pagamentos ou da participação de Jaques Wagner no esquema descrito.






