As eleições estaduais realizadas neste domingo (20/9) na Alemanha produziram um cenário político de forte contraste entre duas importantes regiões do país. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, no nordeste alemão, a Alternativa para a Alemanha (AfD), partido classificado como de extrema direita por diferentes veículos e instituições de imprensa, terminou à frente nas projeções e posteriormente confirmou a liderança na apuração. Já em Berlim, a esquerda, representada pelo partido Die Linke, apareceu na primeira colocação.
Os resultados representam um revés importante para a União Democrata-Cristã (CDU), partido do chanceler Friedrich Merz, especialmente em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, onde a legenda registrou seu pior desempenho histórico em uma eleição estadual. O próprio chefe do governo alemão classificou o resultado como um “desastre”, mas afirmou que continuará no cargo e pretende dar sequência à agenda de reformas de seu governo.
AfD supera a SPD em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental
Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a AfD alcançou inicialmente 37,9% nas projeções divulgadas após o fechamento das urnas. Com o avanço da apuração, o resultado provisório final apontou 38,2% para a legenda, que ficou à frente do Partido Social-Democrata (SPD), da atual governadora Manuela Schwesig, que obteve 35,5%.
A CDU, liderada nacionalmente por Merz, ficou com apenas 4,9% dos votos e não conseguiu alcançar o percentual necessário para conquistar cadeiras no parlamento estadual. O desempenho representa o pior resultado da legenda em uma eleição estadual desde 1949.
O resultado consolida uma sequência de desempenhos expressivos da AfD em estados do leste alemão. A legenda já havia obtido quase 44% dos votos em Saxônia-Anhalt, em uma eleição realizada no início de setembro, ampliando sua presença eleitoral em regiões que integraram a antiga Alemanha Oriental.
Apesar da primeira colocação, a AfD não dispõe, a partir dos resultados conhecidos, de uma maioria que permita governar sozinha. Os demais partidos mantêm uma política de não cooperação com a legenda, o que significa que a definição do próximo governo estadual dependerá das negociações entre as demais forças políticas.
Berlim apresenta cenário diferente
Na capital alemã, o resultado foi praticamente oposto. O Die Linke terminou na primeira colocação, com aproximadamente 25% dos votos. A projeção inicial indicava 25,3%, enquanto a apuração avançada chegou a registrar 25,6% para a legenda.
A CDU apareceu na segunda posição, com cerca de 19%, enquanto a AfD alcançou aproximadamente 16,2%. Os Verdes ficaram em torno de 14%, e o SPD registrou aproximadamente 12%.
O desempenho do Die Linke representa uma mudança relevante no equilíbrio político da cidade-estado. A legenda, que vinha de um resultado inferior no pleito anterior, ampliou significativamente sua votação e passou a ocupar a posição de principal força política no Parlamento de Berlim.
A vitória eleitoral, contudo, não significa automaticamente a formação de um novo governo. Assim como em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, nenhum partido conquistou sozinho a maioria absoluta dos assentos. A composição da próxima administração dependerá, portanto, de negociações e da formação de uma coalizão parlamentar.
Merz promete permanecer no cargo
Diante do resultado adverso para a CDU, Friedrich Merz fez uma declaração pública na qual reconheceu a dimensão da derrota e classificou o desempenho como um “desastre”. Ao mesmo tempo, descartou a possibilidade de abandonar o cargo de chanceler e afirmou que pretende continuar conduzindo o governo federal.
Merz defendeu a necessidade de mudanças e declarou que a Alemanha precisa de “mudanças, determinação, firmeza e paciência”. O chanceler também afirmou que pretende avançar com reformas relacionadas à economia, impostos, previdência, saúde e redução da burocracia.
A declaração ocorre em um momento de crescente pressão política sobre o governo federal. O desempenho da CDU nas eleições estaduais amplia o debate dentro do partido sobre sua estratégia política e sobre a capacidade do governo de recuperar apoio eleitoral, especialmente nas regiões do leste do país.
Um mapa político cada vez mais fragmentado
Os resultados deste domingo também evidenciam a diversidade do cenário político alemão. Enquanto a AfD avança em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, o Die Linke conquista a primeira colocação em Berlim, revelando comportamentos eleitorais bastante diferentes entre as regiões.
A situação também demonstra a importância das eleições estaduais no sistema federativo alemão. Diferentemente do Brasil, onde as eleições estaduais ocorrem simultaneamente em todo o território nacional, os 16 estados da Alemanha possuem calendários eleitorais próprios e regras específicas para seus respectivos parlamentos.
Neste ano, outros estados já passaram por eleições regionais. Em Saxônia-Anhalt, no dia 6 de setembro, a AfD alcançou cerca de 44% dos votos, em um resultado que marcou mais um avanço expressivo da legenda.
Coalizões serão decisivas
A principal consequência prática dos resultados deste domingo será a necessidade de negociação para a formação dos governos estaduais. Em nenhum dos dois estados houve uma legenda capaz de alcançar isoladamente a maioria parlamentar.
Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a liderança da AfD não garante à legenda o comando do governo. A permanência de uma política de isolamento em relação ao partido limita suas possibilidades de construir uma maioria parlamentar. Já em Berlim, o avanço do Die Linke também exigirá negociações para definir quais partidos participarão da futura administração.
Dessa forma, os resultados eleitorais não representam apenas uma disputa entre partidos, mas também abrem uma nova etapa de negociações políticas nos dois estados.
O pleito deste domingo reforça ainda a transformação do ambiente político alemão, marcado pelo crescimento de forças situadas nos extremos do espectro partidário e pela dificuldade dos partidos tradicionais em preservar suas posições históricas. Ao mesmo tempo, o resultado de Berlim mostra que esse movimento não ocorre de maneira uniforme em todo o país.
Com a conclusão da apuração e a definição das bancadas, os próximos dias serão marcados pelas negociações para a formação dos governos estaduais. No plano federal, o resultado aumenta a pressão sobre Friedrich Merz e sobre a CDU, que agora terá de administrar uma derrota histórica em um dos estados e uma perda significativa de espaço político na capital alemã.






