O Ministério das Mulheres registra mais de 16 mil denúncias nos primeiros cinco meses do ano; especialistas apontam que o aumento dos casos revela uma realidade preocupante, mas também demonstra maior confiança das vítimas em denunciar os crimes praticados na internet.
O avanço acelerado da tecnologia e a popularização das redes sociais transformaram profundamente a forma como as pessoas se comunicam, trabalham e interagem. No entanto, esse mesmo ambiente que conecta milhões de usuários diariamente também tem se tornado um espaço cada vez mais utilizado para a prática de violência contra meninas e mulheres em todo o país.
Dados divulgados nesta segunda-feira (22) pelo Ministério das Mulheres revelam um cenário alarmante: as denúncias de violência contra mulheres no ambiente digital cresceram 188,6% em comparação ao mesmo período do ano passado. Entre janeiro e maio deste ano, a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 registrou 16.725 denúncias relacionadas a esse tipo de crime, enquanto, nos primeiros cinco meses do ano anterior, haviam sido contabilizadas 5.795 ocorrências.
Os números reforçam a necessidade urgente de ampliar as políticas públicas de proteção às mulheres e fortalecer os mecanismos de combate às diversas formas de agressão praticadas no universo digital.
O levantamento aponta que redes sociais, aplicativos de mensagens instantâneas, plataformas de jogos online e outros espaços virtuais têm sido frequentemente utilizados como instrumentos de violência psicológica, moral e emocional. Entre as práticas mais recorrentes estão o controle excessivo, ameaças, humilhações, perseguições, intimidações, chantagens, exposições indevidas de imagens e informações pessoais, além de ataques que atingem diretamente a dignidade, a integridade e a segurança das vítimas.
Especialistas destacam que esse tipo de violência provoca impactos profundos na saúde mental das mulheres, gerando ansiedade, medo, depressão e, em muitos casos, isolamento social. Diferentemente da violência física, os crimes digitais podem ocorrer de forma silenciosa, contínua e alcançar uma grande quantidade de pessoas em poucos minutos, potencializando os danos emocionais e psicológicos.
Durante entrevista à imprensa, a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, ressaltou que o aumento das denúncias não significa necessariamente que a violência tenha crescido na mesma proporção, mas pode representar uma importante redução dos casos de subnotificação, um dos principais desafios enfrentados pelos órgãos de proteção às vítimas.
Segundo a ministra, a obtenção de dados mais precisos é fundamental para a construção de políticas públicas mais eficientes.
“Ter os dados da realidade é muito importante. A gente só vai acertar nas respostas pelos governos, políticas públicas, quando tiver mais realismo nas informações”, afirmou.
Márcia Lopes destacou ainda que dois fatores podem estar contribuindo diretamente para a ampliação dos registros: a maior confiança das mulheres nos canais oficiais de denúncia e o aprimoramento do acolhimento oferecido pelos serviços especializados.
A percepção de que as denúncias serão tratadas com seriedade e sigilo tem incentivado cada vez mais vítimas a romperem o silêncio e buscarem apoio institucional. Paralelamente, a modernização dos protocolos de atendimento permite um acompanhamento mais humanizado e eficiente dos casos.
Diante da crescente complexidade desse cenário, o Ministério das Mulheres, em parceria com a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom/PR), promoveu, entre os dias 9 de junho e 22 de julho, uma ampla capacitação destinada aos profissionais que atuam na Central de Atendimento à Mulher.
Ao todo, cerca de 350 atendentes do Ligue 180 participaram do treinamento especializado, que teve como objetivo atualizar os protocolos de atendimento voltados especificamente para os crimes praticados em ambientes digitais.
A coordenadora-geral do Ligue 180, Ellen Costa, explicou que a Central já recebia denúncias relacionadas à violência virtual, mas a atualização dos procedimentos busca aperfeiçoar a identificação dos casos e orientar adequadamente as vítimas sobre as medidas que devem ser adotadas.
“Nesse momento que vivemos, com a violência que acaba sendo realizada nos meios digitais, é importante a gente ter as atendentes qualificadas para saber, em um atendimento virtual, identificar esses tipos de violência e repassar essa informação para a população. É um diferencial”, destacou.
O fortalecimento das equipes de atendimento é considerado uma estratégia essencial para enfrentar uma modalidade de crime que se adapta rapidamente às novas tecnologias e às mudanças de comportamento da sociedade.
Autoridades reforçam que vítimas de violência digital não devem permanecer em silêncio. É fundamental guardar provas, como capturas de tela, conversas, links, áudios e registros das ameaças, além de procurar imediatamente os canais oficiais de denúncia e as autoridades policiais.
A expansão da violência digital representa um dos maiores desafios contemporâneos na proteção dos direitos das mulheres. Especialistas alertam que o combate a esse problema exige uma atuação conjunta entre governos, plataformas digitais, instituições de segurança pública e a própria sociedade.
Mais do que punir os agressores, a meta é construir um ambiente virtual seguro, ético e respeitoso, garantindo que mulheres e meninas possam exercer plenamente sua liberdade e seus direitos sem medo de perseguições, constrangimentos ou qualquer forma de violência.
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