A Polícia Civil de São Paulo instaurou, por meio de sua Corregedoria, 300 procedimentos disciplinares relacionados a denúncias de violência doméstica atribuídas a policiais civis entre 2022 e 2025. O volume corresponde, em média, a um caso a cada cinco dias e expõe a persistência de um problema estrutural dentro da corporação, que, segundo integrantes do próprio órgão de controle interno, ainda é subnotificado.
Os dados oficiais revelam uma curva de crescimento ao longo do período analisado. Em 2022, foram registrados 64 procedimentos. No ano seguinte, o número subiu para 69. Em 2024, chegou a 78, e, em 2025, alcançou 89 ocorrências. As estatísticas englobam diferentes tipos de apuração, como investigações preliminares, inquéritos policiais, sindicâncias internas e processos administrativos disciplinares instaurados para apurar agressões atribuídas a membros da instituição.
Apesar do avanço nos números, a própria Corregedoria reconhece que os registros não refletem, necessariamente, a dimensão real do problema. Um integrante do órgão, ouvido sob condição de anonimato, afirmou que casos de violência doméstica envolvendo policiais civis tendem a ser menos denunciados do que ocorrências semelhantes na população em geral. De acordo com a fonte, o medo de represálias, aliado ao constrangimento de procurar uma delegacia onde colegas do suposto agressor atuam, funciona como uma barreira adicional para as vítimas.
Ainda segundo o órgão fiscalizador, o crescimento das estatísticas pode indicar, em parte, um maior encorajamento das vítimas para formalizar denúncias e uma atuação mais rigorosa da Corregedoria. No entanto, essa evolução não afasta a hipótese de que haja um número significativo de episódios que permanecem fora das estatísticas oficiais, seja por silêncio, seja por desistência das vítimas ao longo do processo.
Diante desse cenário, a instituição decidiu adotar uma medida considerada inédita em sua história: a utilização de tornozeleiras eletrônicas em policiais civis investigados por violência doméstica que estejam submetidos a restrições judiciais. O monitoramento eletrônico será aplicado sempre que houver medida protetiva determinando o afastamento do investigado em relação à vítima, como forma de garantir o cumprimento das decisões judiciais e ampliar a proteção.
De acordo com informações internas, até esta segunda-feira (16/2), a medida já havia sido determinada contra dois policiais civis investigados em outros contextos, tornando-os os primeiros integrantes da corporação a utilizar o equipamento em São Paulo. A iniciativa é tratada nos bastidores como um marco na política disciplinar da Polícia Civil, sinalizando uma postura mais rígida diante de infrações graves cometidas por seus próprios agentes.
Para a Corregedoria, o monitoramento eletrônico representa não apenas um instrumento de fiscalização, mas também um recado institucional de que a condição de policial não confere imunidade a práticas criminosas, especialmente em casos de violência doméstica. A expectativa é que a medida contribua para reduzir a reincidência, aumentar a sensação de segurança das vítimas e fortalecer a credibilidade da corporação perante a sociedade.





