As mortes recentes da atriz Titina Medeiros, aos 48 anos, e do jornalista André Miceli, aos 46, ambas em decorrência de câncer de pâncreas, trouxeram à tona uma preocupação crescente entre especialistas: o avanço silencioso desse tumor agressivo em adultos jovens, abaixo dos 50 anos. Embora ainda seja considerado um câncer associado ao envelhecimento, dados nacionais e internacionais apontam para uma mudança gradual no perfil dos pacientes diagnosticados.
Tradicionalmente, o câncer de pâncreas é mais comum em pessoas com mais de 60 anos. No entanto, pesquisas recentes indicam que a doença tem aparecido com maior frequência em faixas etárias mais jovens, fenômeno que vem sendo observado tanto em estudos epidemiológicos quanto na rotina dos consultórios médicos.
No Brasil, o tumor representa cerca de 1% de todos os tipos de câncer, com a expectativa de aproximadamente 11 mil novos casos ao longo deste ano. Apesar de não figurar entre os mais incidentes, o câncer de pâncreas é responsável por cerca de 5% das mortes por câncer no país, reflexo de seu diagnóstico tardio e da rápida progressão da doença.
Levantamentos do Globocan 2022, compilados pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), revelam que 5,8% dos casos são identificados antes dos 50 anos de idade. À primeira vista, a proporção pode parecer pequena, mas, segundo especialistas, é significativa o suficiente para acender um sinal de alerta na comunidade médica.
“Historicamente, esse tipo de tumor era ainda mais raro nessa faixa etária”, afirma a oncologista Clarissa Baldotto, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC). Para ela, o cenário atual sugere uma mudança epidemiológica semelhante à que vem sendo observada no câncer colorretal, cuja incidência também tem aumentado entre adultos jovens nas últimas décadas.
A tendência não é exclusiva do Brasil. Nos Estados Unidos, dados recentes indicam um crescimento anual de cerca de 1% nos diagnósticos em pessoas com menos de 45 anos. Estimativas apontam que até 5% dos casos já ocorrem antes dos 50 anos, reforçando a percepção de que o câncer de pâncreas deixou de ser uma doença restrita aos idosos.
Em grupos ainda mais jovens, como entre 15 e 34 anos, alguns estudos identificam os maiores aumentos percentuais na incidência. Apesar disso, especialistas ressaltam que os números absolutos permanecem baixos, o que dificulta estratégias de rastreamento em larga escala.
Segundo médicos, fatores como obesidade, tabagismo, sedentarismo, alimentação inadequada e histórico familiar podem estar relacionados a esse avanço precoce, embora as causas exatas ainda estejam sendo investigadas. Outro desafio é que o câncer de pâncreas costuma apresentar sintomas inespecíficos ou silenciosos em fases iniciais, o que contribui para diagnósticos tardios e prognóstico desfavorável.
Para os especialistas, os casos de Titina Medeiros e André Miceli reforçam a necessidade de maior atenção aos sinais clínicos, investimento em pesquisa e conscientização da população, especialmente entre adultos jovens que, muitas vezes, não se percebem em risco.
“Ao mesmo tempo em que os números ainda são relativamente baixos, o crescimento consistente ao longo dos anos exige vigilância”, conclui Clarissa Baldotto. “Identificar essa mudança de perfil é o primeiro passo para melhorar o diagnóstico e, no futuro, as chances de tratamento.”





