À medida que o Brasil se aproxima das eleições de 2026, cresce também a necessidade de uma reflexão profunda por parte do eleitorado sobre o papel real daqueles que foram escolhidos para representar a população no Legislativo municipal. Em um cenário marcado por dificuldades econômicas, desafios persistentes na saúde pública e fragilidades históricas na educação, a pergunta que ecoa nas ruas, nas redes sociais e nos debates informais é direta e incômoda: onde estão os vereadores eleitos pelos partidos?
Eleitos com o discurso da mudança, da fiscalização e da defesa dos interesses coletivos, muitos vereadores acabam se tornando figuras silenciosas ou excessivamente alinhadas a interesses que pouco dialogam com as reais necessidades da população. A função do vereador vai muito além da ocupação de um cargo político. Cabe a ele legislar, fiscalizar o Executivo, propor políticas públicas e atuar como ponte entre a sociedade e o poder público. No entanto, a prática nem sempre acompanha a teoria.
Em diversas cidades do país, observa-se um distanciamento entre o discurso de campanha e a atuação concreta no mandato. Surge, então, outra indagação: os vereadores estão, de fato, se unindo ao Executivo para mudar a história de suas cidades e contribuir para um projeto mais amplo de desenvolvimento nacional? Ou a filiação partidária serviu apenas como trampolim eleitoral, um meio para alcançar o poder sem compromisso ideológico ou programático?
Outro ponto sensível diz respeito à relação entre Legislativo e Executivo. As bancadas alinhadas aos prefeitos costumam se unir apenas em períodos estratégicos, sobretudo quando há interesses eleitorais em jogo. Quando o prefeito declara apoio a determinado candidato em disputas estaduais ou federais, o Legislativo municipal acompanha essa decisão de forma consciente e coletiva ou cada vereador age conforme seus próprios interesses? A união ocorre em torno de projetos estruturantes para a cidade ou se resume a acordos pontuais, muitas vezes motivados por cargos, indicações e favores políticos?
A crítica recorrente é que parte dos vereadores atua de forma individualista, priorizando o “próprio umbigo” em vez de somar forças com o executivo para transformar a realidade local. Em vez de debater políticas públicas de longo prazo, muitos se limitam a negociações de bastidores, pedidos por espaços na administração e disputas internas por poder. Nesse contexto, o interesse público acaba ficando em segundo plano.
O eleitor, por sua vez, se vê diante de uma série de perguntas que raramente encontram respostas claras. O que, afinal, a cidade espera dos vereadores que elegeu? Compromisso com a população ou fidelidade a acordos políticos? Atuação firme na fiscalização ou silêncio conveniente diante do Executivo? Defesa de um projeto coletivo ou adesão ao chamado “leilão político”, em que quem paga mais seja em cargos, apoio ou influência leva a adesão?
Há ainda o questionamento sobre o próprio significado dos partidos políticos para muitos parlamentares municipais. Os vereadores conhecem e defendem as diretrizes de suas legendas? Participam de reuniões partidárias, debates internos e processos de construção coletiva? Sabem, ao menos, quem são os presidentes de seus partidos em âmbito municipal, estadual ou nacional? Ou a sigla é apenas uma formalidade exigida pela legislação eleitoral?
Em tempos de crise e descrença nas instituições, a reflexão se torna urgente. As eleições de 2026 não dizem respeito apenas à escolha de presidentes, governadores e parlamentares estaduais e federais. Elas também passam, de forma direta, pela atuação cotidiana dos vereadores, que estão mais próximos da população e têm condições concretas de influenciar a vida das pessoas.
Cabe ao eleitor observar, questionar e cobrar. Entender quem realmente trabalha pela cidade, quem se posiciona com coerência e quem apenas ocupa espaço político. Mais do que nunca, o voto precisa ser um instrumento de consciência, capaz de distinguir entre representantes comprometidos com o interesse público e aqueles que veem a política apenas como meio de ascensão pessoal. Afinal, a mudança que o país precisa começa, muitas vezes, na Câmara Municipal.





