A diminuição da vida sexual após o casamento é uma queixa frequente em consultórios terapêuticos e em conversas íntimas, especialmente entre mulheres. Longe de indicar falta de amor ou de compromisso, o fenômeno conhecido popularmente como “casamento branco” ou, em termos técnicos, “déficit de frequência sexual” costuma ser resultado de um conjunto complexo de fatores emocionais, físicos e sociais que se acumulam ao longo da relação.
Especialistas explicam que o problema raramente surge de forma repentina. Segundo a sexóloga Alessandra Araújo, a queda do desejo sexual funciona como um sinal de alerta para questões mais profundas. “A redução da libido geralmente é um sintoma de algo maior, seja na dinâmica do casal ou na vida individual de cada parceiro. Trata-se de uma questão claramente biopsicossocial”.
Do ponto de vista psicológico, Alessandra chama atenção para um paradoxo comum nos relacionamentos de longa duração. Enquanto o desejo sexual costuma se alimentar de novidade, mistério e estímulo, o casamento é construído sobre bases como previsibilidade, intimidade e segurança emocional. Com o passar do tempo, esse excesso de familiaridade pode modificar a forma como o parceiro é percebido.
“O cônjuge deixa de ser visto como alguém sedutor e passa a ocupar o lugar de cuidador, companheiro de rotina, quase uma extensão das obrigações do dia a dia”, explica a sexóloga. Para ela, a ausência de flerte e de gestos de conquista contribui significativamente para esse distanciamento. “Muitos casais abandonam o cortejo. O outro deixa de ser desejado e passa a ser apenas necessário”, resume.
Além dos aspectos emocionais, fatores físicos também exercem forte influência na vida sexual conjugal. Alterações hormonais, cansaço extremo, uso de medicamentos, maternidade, sobrecarga de trabalho e problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão, impactam diretamente o desejo, sobretudo entre mulheres. “É comum que elas acumulem múltiplas jornadas e acabem colocando o prazer sempre em último lugar”, observa Alessandra.
O contexto social e cultural também pesa. A idealização do casamento como um espaço onde o desejo deveria ser constante pode gerar frustração e culpa, dificultando o diálogo aberto sobre o tema. “Ainda existe muito tabu em admitir que a vida sexual mudou. Muitos casais sofrem em silêncio por acreditarem que isso representa fracasso”, pontua a especialista.
Para os profissionais da área, a principal saída passa pela comunicação e pelo autoconhecimento. Buscar ajuda especializada, resgatar momentos de intimidade e compreender que o desejo pode e deve ser construído ao longo do tempo são passos fundamentais. “O desejo não desaparece simplesmente; ele precisa ser cultivado. O casamento não é o fim da vida sexual, mas exige intencionalidade”, conclui Alessandra Araújo.
A discussão sobre a queda da vida sexual após o casamento, cada vez mais presente em debates públicos e acadêmicos, reforça a necessidade de olhar para os relacionamentos de forma mais realista e menos idealizada, reconhecendo que amor, parceria e desejo caminham juntos, mas não necessariamente no mesmo ritmo.





