Desde 2023, a TV Globo recebeu R$ 462 milhões em anúncios do governo federal, valor que corresponde a 49,4% de todo o montante destinado à publicidade televisiva durante o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os dados, divulgados pelo site Poder360 com base em informações do Sistema de Comunicação de Governo do Poder Executivo Federal (Sicom), revelam uma concentração inédita de recursos e reacendem o debate sobre os critérios adotados na distribuição das verbas públicas de comunicação.
O montante destinado à Globo no atual governo representa mais que o dobro dos R$ 228,5 milhões recebidos pela emissora nos três primeiros anos da gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Naquele período, a participação da Globo nas verbas de publicidade federal ficou abaixo de 30%, em um cenário apontado como o mais equilibrado entre as principais redes abertas do país.
Segundo o levantamento, a emissora líder de audiência registrou um crescimento de 102% nas receitas provenientes de publicidade estatal desde o início do novo governo. Em sentido oposto, Record, SBT e Band perderam participação na divisão dos recursos administrados pela Secretaria de Comunicação Social (Secom). Entre as grandes redes, a Globo foi a única a ampliar sua fatia desde 2022.
Especialistas em comunicação pública avaliam que a concentração pode ser explicada por critérios técnicos, como alcance, audiência e capilaridade nacional. Defensores dessa abordagem argumentam que o investimento segue métricas de eficiência, buscando maximizar o impacto das campanhas institucionais junto à população. “Em uma lógica de mercado, quem entrega maior audiência tende a receber mais recursos”, pontuam analistas do setor.
Por outro lado, críticos da política atual alertam para riscos à pluralidade informativa e à diversidade do ecossistema midiático. Para esses observadores, a concentração excessiva de verbas em uma única emissora pode enfraquecer a concorrência e limitar o acesso de diferentes públicos às mensagens institucionais. Há também quem defenda critérios que combinem desempenho com equilíbrio regional e diversidade de veículos.
Procurado em ocasiões anteriores para comentar a política de mídia, o governo federal tem sustentado que a distribuição da publicidade segue parâmetros técnicos e legais, sem favorecimentos políticos, e que os investimentos são auditáveis. Ainda assim, o tema permanece sensível e tende a continuar no centro do debate público, especialmente em um contexto de polarização política e de questionamentos sobre transparência no uso de recursos públicos.
A discussão sobre a publicidade estatal, portanto, vai além dos números. Ela envolve princípios de eficiência, pluralidade, responsabilidade fiscal e o papel do Estado na sustentação ou não de diferentes vozes na mídia brasileira.





