O diagnóstico do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) ainda representa um desafio, especialmente para mulheres adultas. Uma pesquisa populacional realizada na Suécia, que acompanhou mais de 85 mil pessoas, identificou uma diferença significativa no tempo necessário para reconhecer o transtorno entre os gêneros. De acordo com os resultados, mulheres podem levar, em média, até quatro anos a mais do que os homens para receber um diagnóstico correto.
O levantamento, publicado no Journal of Child Psychology and Psychiatry, chama a atenção para uma realidade que frequentemente passa despercebida nos atendimentos de saúde: as dificuldades enfrentadas por mulheres que convivem durante anos com sintomas de TDAH sem compreender a origem de suas dificuldades. A identificação tardia não representa apenas um atraso na confirmação clínica, mas pode trazer consequências importantes para a saúde mental, a qualidade de vida e o desenvolvimento pessoal e profissional dessas pacientes.
Entre os principais resultados observados pelos pesquisadores está a associação entre o diagnóstico tardio e índices mais elevados de ansiedade e depressão. O estudo também identificou uma utilização prolongada dos serviços de saúde antes que o transtorno fosse finalmente reconhecido. Esse cenário sugere que muitas mulheres percorrem diferentes etapas de investigação, recebem outras hipóteses diagnósticas e enfrentam dificuldades para encontrar uma explicação adequada para sintomas que, em muitos casos, estão presentes desde a infância.
Diferenças na manifestação dos sintomas dificultam a identificação
Uma das explicações para essa desigualdade está relacionada à maneira como o TDAH pode se manifestar durante a infância. Tradicionalmente, os sinais mais facilmente reconhecidos estão associados à hiperatividade motora, à impulsividade e aos comportamentos agitados, características frequentemente observadas em meninos.
Crianças que apresentam esse perfil tendem a chamar mais atenção de pais, professores e profissionais da saúde. A dificuldade de permanecer sentadas, interromper atividades, falar excessivamente ou demonstrar inquietação constante costuma provocar situações que levam à busca por avaliação especializada.
Entre as meninas, entretanto, o quadro pode apresentar características menos evidentes. Em muitos casos, predomina o padrão desatencional, marcado por dificuldades de concentração, esquecimentos frequentes, desorganização, distração e problemas para acompanhar determinadas atividades.
Por não necessariamente apresentarem comportamentos considerados perturbadores no ambiente escolar ou familiar, essas meninas podem passar despercebidas durante anos. Suas dificuldades são, muitas vezes, interpretadas como distração, timidez, falta de interesse, desorganização ou até mesmo ausência de esforço.
Essa diferença na apresentação dos sintomas contribui para que o transtorno seja reconhecido com maior facilidade em determinados perfis, enquanto outras manifestações permanecem sem investigação adequada.
Sofrimento emocional pode esconder sinais do transtorno
Outro aspecto importante está relacionado à maneira como algumas meninas lidam internamente com as dificuldades provocadas pelo TDAH. Em vez de manifestarem inquietação de forma evidente, podem desenvolver sentimentos de inadequação, insegurança e frustração diante das cobranças do cotidiano.
A dificuldade para acompanhar o ritmo das atividades escolares, organizar compromissos, cumprir prazos ou manter a atenção pode provocar um desgaste emocional significativo. Com o passar do tempo, essas experiências podem contribuir para o surgimento de ansiedade, retração social e baixa autoestima.
Em determinadas situações, a criança passa a acreditar que suas dificuldades representam falhas pessoais. Sem compreender por que determinadas tarefas exigem tanto esforço, pode desenvolver uma percepção negativa sobre suas próprias capacidades.
Esse processo também pode dificultar a identificação do transtorno, uma vez que os sintomas emocionais acabam recebendo maior atenção do que as possíveis alterações relacionadas à atenção, à impulsividade e às funções executivas.
A ausência de um diagnóstico adequado durante a infância pode fazer com que essas dificuldades acompanhem a mulher ao longo da adolescência e da vida adulta, interferindo em diferentes áreas de sua trajetória.
Estratégias de compensação escondem dificuldades na vida adulta
Na idade adulta, muitas mulheres desenvolvem mecanismos para compensar as dificuldades provocadas pelo transtorno. São estratégias utilizadas para conseguir cumprir responsabilidades, organizar a rotina e corresponder às expectativas familiares, acadêmicas e profissionais.
O uso constante de agendas, listas, alarmes, lembretes e planejamentos detalhados pode funcionar como uma tentativa de reduzir os impactos da desatenção e da desorganização. Algumas mulheres também passam a dividir tarefas complexas em pequenas etapas, estabelecer rotinas rígidas e dedicar um tempo excessivo à preparação de atividades simples.
Embora esses mecanismos possam contribuir para a realização das obrigações diárias, também exigem um esforço mental contínuo. A necessidade de monitorar permanentemente cada compromisso, revisar tarefas e antecipar possíveis esquecimentos pode provocar cansaço, tensão e sensação de sobrecarga.
A psiquiatra Fabrícia Signorelli, do Ambulatório de TDAH no Adulto da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que essa capacidade de adaptação pode dificultar o reconhecimento do transtorno.
“A mulher com TDAH se destaca pela capacidade de desenvolver estratégias adaptativas e compensatórias para minimizar as disfunções do transtorno, como o uso de listas, lembretes e o fracionamento de tarefas”, afirma a especialista.
A médica também chama a atenção para o custo emocional dessa adaptação constante. Embora essas estratégias ajudem a mulher a manter determinadas atividades sob controle, o esforço necessário para sustentar esse funcionamento pode resultar em esgotamento físico e psicológico.
Na prática, uma mulher pode apresentar bom desempenho profissional ou acadêmico e, ainda assim, enfrentar dificuldades significativas para organizar a própria rotina. O fato de conseguir cumprir suas responsabilidades não significa, necessariamente, que não existam sintomas ou prejuízos associados ao TDAH.
Diagnóstico correto é fundamental para a qualidade de vida
O reconhecimento do TDAH em mulheres exige atenção às diferentes formas de manifestação do transtorno e à história de vida da paciente. Uma avaliação adequada considera os sintomas, sua presença desde a infância, os impactos no cotidiano e a possibilidade de outras condições que possam coexistir ou apresentar manifestações semelhantes.
O diagnóstico não deve ser estabelecido apenas com base em esquecimentos, dificuldades de concentração ou episódios de ansiedade. É necessária uma investigação clínica individualizada, conduzida por profissional habilitado, que considere o conjunto de características e o histórico da pessoa.
A identificação correta permite compreender dificuldades que, durante muito tempo, podem ter sido interpretadas de maneira equivocada. Também possibilita discutir estratégias de acompanhamento, intervenções terapêuticas e, quando indicado, tratamento medicamentoso.
Além disso, o diagnóstico pode representar uma mudança importante na maneira como a mulher compreende sua própria trajetória. Ao identificar a origem de determinadas dificuldades, torna-se possível substituir sentimentos de culpa e inadequação por uma compreensão mais clara de suas necessidades e possibilidades.
Atenção à saúde mental feminina
Os resultados da pesquisa sueca reforçam a importância de ampliar o conhecimento sobre o TDAH em meninas e mulheres, especialmente entre profissionais que atuam nas áreas de saúde, educação e assistência psicológica.
A identificação precoce pode contribuir para evitar anos de dificuldades sem explicação e reduzir os impactos emocionais associados à ausência de acompanhamento adequado. Para isso, é necessário considerar que o transtorno não apresenta uma única forma de manifestação e que a ausência de hiperatividade evidente não significa ausência de TDAH.
Também é importante combater interpretações equivocadas que associam desatenção exclusivamente à falta de interesse, desorganização à irresponsabilidade ou dificuldades de concentração à ausência de capacidade.
Mais do que reconhecer comportamentos considerados típicos, o desafio está em observar os sinais menos evidentes e compreender como eles afetam a vida de cada pessoa.
A diferença de até quatro anos no tempo de diagnóstico identificada pelo estudo evidencia uma questão que merece atenção: muitas mulheres podem passar boa parte da vida tentando compensar dificuldades que ainda não foram devidamente compreendidas.
Ampliar o debate, qualificar a avaliação clínica e reconhecer as particularidades da manifestação do TDAH no público feminino são medidas fundamentais para que meninas e mulheres tenham acesso a diagnóstico, acolhimento e acompanhamento adequados.
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