A Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa) firmou, em maio de 2026, um contrato no valor de R$ 150 mil com a Ecoari, startup fundada por Isadora Alencar, filha do senador Otto Alencar (PSD-BA), para a implementação de três ecopontos digitais em Salvador. O acordo, com vigência prevista até dezembro deste ano, foi celebrado sem a realização de licitação, por meio da modalidade de patrocínio, que admite a contratação por inexigibilidade de licitação, desde que atendidos os requisitos legais aplicáveis.
A contratação coloca em evidência a relação entre uma empresa pública estadual, uma iniciativa privada ligada a familiares de uma figura de destaque da política baiana e os mecanismos utilizados pela administração pública para financiar projetos considerados de interesse coletivo. Embora a legislação permita determinadas contratações diretas, a modalidade exige o cumprimento das condições previstas nas normas pertinentes, além de justificativas e procedimentos que assegurem a regularidade do ato administrativo.
O valor de R$ 150 mil será destinado à empresa para desenvolver o projeto dos ecopontos digitais, equipamentos e iniciativas voltados ao incentivo à destinação correta de resíduos recicláveis. A proposta está associada a uma estratégia de estímulo à participação da população na coleta seletiva, utilizando recursos tecnológicos para tornar o descarte ambientalmente adequado mais atrativo aos cidadãos.
Em manifestação sobre o contrato, a Embasa informou que o projeto foi submetido à avaliação técnica de uma comissão interna e que o procedimento observou os trâmites legais exigidos para a formalização do patrocínio.
Segundo a estatal, a liberação dos recursos não ocorre de maneira desvinculada da execução do projeto. Em nota, a empresa declarou: “O pagamento do patrocínio está condicionado à comprovação do cumprimento das entregas previstas no projeto aprovado”.
A manifestação indica que o repasse financeiro está vinculado à demonstração de que as atividades e obrigações estabelecidas no acordo foram efetivamente executadas. O cumprimento dessas entregas constitui um dos pontos relevantes para o acompanhamento do contrato, especialmente diante do uso de recursos de uma companhia pública.
Ecoari aposta em tecnologia para estimular a reciclagem
A Ecoari desenvolve uma plataforma digital que busca incentivar o descarte correto de materiais recicláveis por meio de um sistema de pontuação e recompensas. O funcionamento do aplicativo prevê que os usuários acumulem pontos ao depositar resíduos em locais determinados, podendo participar de sorteios de prêmios como forma de reconhecimento pela adoção de práticas ambientalmente responsáveis.
A proposta procura combinar tecnologia, educação ambiental e estímulos à mudança de comportamento. Ao oferecer recompensas pela entrega de materiais recicláveis, a startup pretende ampliar a adesão da população à coleta seletiva e contribuir para a redução do descarte irregular de resíduos em espaços públicos.
Em Salvador, a destinação inadequada do lixo representa um desafio para a infraestrutura urbana, sobretudo em períodos de chuvas intensas. Resíduos lançados em ruas, canais e sistemas de drenagem podem comprometer o escoamento da água, obstruir estruturas e agravar pontos de alagamento. Por esse motivo, iniciativas que promovam o descarte adequado são apresentadas como alternativas complementares às políticas de limpeza urbana, saneamento e educação ambiental.
A implantação dos três ecopontos digitais, portanto, está relacionada a uma questão que ultrapassa a simples coleta de materiais recicláveis: a necessidade de ampliar a conscientização ambiental e reduzir práticas que contribuem para problemas de drenagem e manutenção das redes públicas.
Entretanto, a avaliação dos resultados do projeto dependerá de fatores como a efetiva instalação dos pontos, a adesão dos usuários, o volume de resíduos recolhidos e a capacidade de demonstrar benefícios ambientais concretos. Esses indicadores são importantes para verificar se os objetivos anunciados correspondem aos resultados alcançados com o investimento.
Startup ganhou projeção após revelações sobre financiamento ligado ao Banco Master
A contratação pela Embasa ocorre em um contexto no qual a Ecoari já havia ganhado visibilidade nacional após uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo abordar questões relacionadas ao financiamento da startup pelo empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
De acordo com as informações divulgadas pelo jornal, a empresa recebeu recursos associados ao empresário, que foi preso pela Polícia Federal. A reportagem também apontou que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) foi alertado pela B3, a bolsa de valores brasileira, a respeito de ativos da startup custodiados pelo Banco Master que seriam incompatíveis com o porte da empresa.
O episódio trouxe questionamentos sobre as movimentações financeiras envolvendo a companhia e a origem dos recursos relacionados ao seu desenvolvimento empresarial. A existência de alertas sobre operações financeiras, por si só, contudo, não comprova a prática de irregularidades pela startup ou por seus responsáveis.
Ao comentar as movimentações, Isadora Alencar afirmou ao jornal que os valores envolvidos correspondiam a um “empréstimo regular”. A declaração representa a explicação apresentada pela empresária a respeito da natureza das operações financeiras mencionadas na reportagem.
As informações sobre o financiamento e os ativos mantidos no Banco Master constituem um contexto distinto da contratação celebrada com a Embasa. Para estabelecer qualquer relação entre os episódios, seria necessário dispor de elementos documentais específicos que demonstrassem eventual conexão entre as operações financeiras e o contrato de patrocínio firmado com a estatal.
Até as informações apresentadas sobre o caso, não há indicação de que o contrato de R$ 150 mil tenha sido objeto de uma conclusão oficial de irregularidade. Assim, a análise da contratação deve considerar os documentos administrativos, os critérios de seleção do projeto e as obrigações assumidas pelas partes, sem antecipar conclusões que dependam de apuração.
Empresa defende importância ambiental do projeto em Salvador
Ao se manifestar sobre o patrocínio, a Ecoari afirmou que foi contratada para desenvolver programas destinados a incentivar o descarte correto de resíduos. A empresa sustenta que a iniciativa tem potencial para contribuir com a prevenção de problemas urbanos relacionados ao acúmulo de lixo e à obstrução de redes públicas.
Em nota, a startup declarou: “São programas essenciais para reduzir ou mesmo evitar alagamentos e entupimentos de redes públicas de esgoto e drenagem fluvial, problemas que, com frequência, castigam boa parte da população de Salvador durante o período de chuvas”.
A justificativa apresentada pela empresa associa o projeto a uma questão recorrente na capital baiana: os impactos do descarte irregular de resíduos sobre a infraestrutura urbana e a qualidade de vida da população. A presença de materiais sólidos em sistemas de drenagem pode prejudicar o escoamento das águas pluviais, embora a ocorrência de alagamentos também dependa de fatores como a intensidade das chuvas, a capacidade da rede, as condições de manutenção e as características do território.
Nesse cenário, os ecopontos digitais são apresentados como instrumentos de incentivo à participação popular. A proposta prevê a utilização de recursos tecnológicos para estimular comportamentos sustentáveis, com a expectativa de que a combinação entre informação e recompensas favoreça a destinação adequada dos materiais recicláveis.
Para que a iniciativa produza efeitos duradouros, entretanto, a instalação dos equipamentos precisa estar acompanhada de ações de divulgação, orientação aos usuários, manutenção e monitoramento dos resultados. A transparência sobre o funcionamento dos pontos e os indicadores de desempenho também pode ajudar a população a compreender os benefícios gerados pelo projeto.
Transparência e fiscalização são essenciais na aplicação dos recursos
A contratação direta de empresas pela administração pública não é, por si só, sinônimo de irregularidade. A legislação brasileira prevê hipóteses específicas em que a licitação pode ser dispensada ou considerada inexigível, conforme a natureza do objeto e o atendimento dos pressupostos legais. A modalidade de patrocínio, por sua vez, não elimina a necessidade de justificativa administrativa, formalização adequada e fiscalização da execução.
No caso da Ecoari, a Embasa afirma que a proposta passou por avaliação técnica interna e que os procedimentos legais foram observados. A estatal também destacou que o pagamento está condicionado à comprovação das entregas previstas no projeto aprovado.
A verificação independente desses pontos depende, entre outros elementos, do acesso aos documentos que fundamentaram a contratação, da justificativa para a escolha da modalidade de patrocínio, das condições estabelecidas para a execução e dos registros que comprovem o cumprimento das obrigações contratuais.
Também é relevante que os resultados do investimento sejam apresentados de forma objetiva, permitindo avaliar se os três ecopontos foram efetivamente implantados e se a iniciativa alcançou os resultados ambientais previstos. A divulgação dessas informações contribui para o controle social e para a confiança da população na utilização de recursos administrados por uma empresa pública.
A condição de filha de um senador, por si só, não demonstra favorecimento ou ilegalidade na contratação. Ao mesmo tempo, vínculos familiares envolvendo agentes políticos e empresas beneficiadas por recursos públicos tornam especialmente importante a transparência dos critérios adotados, a documentação dos procedimentos e a possibilidade de fiscalização pelos órgãos competentes.
O caso reúne, assim, duas dimensões que precisam ser examinadas com rigor: de um lado, a finalidade ambiental de um projeto que pretende estimular a reciclagem e contribuir para a redução do descarte irregular de resíduos; de outro, a necessidade de esclarecer os fundamentos administrativos e assegurar a correta aplicação dos R$ 150 mil destinados à iniciativa.
Com vigência prevista até dezembro de 2026, o contrato deverá ser acompanhado à luz das entregas pactuadas e dos resultados efetivamente demonstrados. A divulgação dos dados relativos à execução poderá ajudar a esclarecer o alcance da iniciativa e a verificar se os recursos investidos produziram os benefícios ambientais anunciados.
Mais do que a formalização de um patrocínio, a contratação evidencia a importância de conciliar inovação tecnológica, políticas de sustentabilidade e mecanismos sólidos de transparência. Em projetos financiados por empresas públicas, a finalidade de interesse coletivo e a regularidade dos procedimentos precisam caminhar juntas, com informações acessíveis à sociedade e resultados passíveis de verificação.
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