Um levantamento divulgado em 23 de setembro pelo Ranking dos Políticos identificou um cenário marcado por forte divisão entre os candidatos ao Senado nas eleições de 2026 em relação ao impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Dos 273 nomes analisados, quase metade declarou apoio ao afastamento de integrantes da Corte, enquanto mais de quatro em cada dez ainda não apresentaram publicamente uma posição sobre o assunto.
O levantamento ganhou relevância no contexto da disputa eleitoral deste ano porque o Senado Federal possui, pela Constituição, competência privativa para processar e julgar ministros do STF por crimes de responsabilidade. A discussão, portanto, envolve diretamente uma das atribuições institucionais da futura composição da Casa.
Segundo o Ranking dos Políticos, a apuração considerou manifestações públicas dos candidatos identificadas até a data do levantamento. A metodologia reuniu informações de duas apurações independentes: uma realizada pela Gazeta do Povo e outra conduzida pelo analista político Danylo Shimano, do próprio Ranking. Como houve casos em que declarações atribuídas aos candidatos divergiam de manifestações posteriores feitas pelos próprios concorrentes, foi considerada, nesses episódios, a declaração pública mais recente do candidato.
Levantamento identifica diferentes posições entre os candidatos
A pesquisa não se limitou a dividir os candidatos entre favoráveis e contrários ao impeachment. O mapeamento também criou categorias específicas para aqueles que defendem mudanças no Poder Judiciário, mas não necessariamente defendem o afastamento de ministros do Supremo.
Essa distinção é relevante porque parte dos candidatos manifesta preocupação com o funcionamento da Justiça ou defende alterações estruturais no Judiciário sem, necessariamente, apoiar um processo de impeachment.
Entre as propostas mencionadas no levantamento estão a discussão sobre mandato fixo para ministros do STF, mudanças nas regras de indicação e limitações para decisões monocráticas. Dessa forma, o levantamento procura diferenciar o apoio ao impeachment de posições favoráveis a uma reforma mais ampla das instituições do Judiciário.
Também foram identificados candidatos que condicionam eventual apoio ao afastamento de ministros à apresentação de uma denúncia formal ou à conclusão de investigações em andamento. Nesses casos, a posição não representa necessariamente um apoio imediato e irrestrito ao impeachment, mas uma disposição de analisar o caso a partir de fatos, provas e procedimentos formais.
Outro grupo reúne candidatos que se declararam contrários ao impeachment. De acordo com o levantamento, entre as justificativas apresentadas estão a defesa da atual composição do Supremo e o entendimento de que pedidos de afastamento poderiam representar uma ruptura institucional ou deslocar o debate eleitoral de outras questões consideradas prioritárias pelos próprios candidatos.
Piauí apresenta elevado número de candidatos sem posição definida
Um dos principais contrastes identificados pelo levantamento aparece na comparação entre os estados.
No Piauí, foram mapeados 20 candidatos ao Senado, o maior número registrado na apuração. Entretanto, somente quatro declararam apoio ao impeachment de ministros do STF. Outros 11 não apresentaram posição pública sobre o assunto, enquanto quatro não foram localizados durante a apuração.
O resultado faz do estado um dos casos em que existe maior distância entre o número de candidatos que efetivamente assumiram uma posição e aqueles cuja posição ainda não está clara publicamente. Considerando os candidatos sem manifestação e os que não foram localizados, mais de três quartos dos nomes piauienses analisados não tinham uma posição claramente identificada sobre o tema no momento da apuração.
A situação evidencia também uma das principais limitações apontadas pelo próprio levantamento: ausência de manifestação pública não significa necessariamente neutralidade. Significa, especificamente, que não foi encontrada uma declaração suficiente para classificar aquele candidato em uma das posições estabelecidas pela pesquisa.
Sergipe aparece no extremo oposto
Em Sergipe, o cenário identificado foi bastante diferente. Dos dez candidatos ao Senado analisados, nove declararam apoio ao afastamento de ministros do Supremo Tribunal Federal. Segundo o Ranking dos Políticos, trata-se da maior proporção de apoio registrada entre os estados pesquisados.
A diferença entre Piauí e Sergipe demonstra como o debate apresenta características distintas de acordo com cada estado, mesmo dentro de uma eleição nacional para o mesmo cargo.
Enquanto no Piauí predominou a ausência de posicionamento público, em Sergipe houve uma concentração expressiva de manifestações favoráveis ao impeachment entre os candidatos identificados.
Rio Grande do Sul e Mato Grosso também aparecem como casos particulares. Segundo o levantamento, foram os únicos estados em que todos os candidatos mapeados apresentaram alguma posição registrada, sem candidatos classificados como “não localizados”.
Tema ganhou espaço no debate eleitoral
A discussão sobre o impeachment de ministros do STF ocorre em meio à existência de dezenas de propostas e representações relacionadas à Corte no Congresso Nacional.
O levantamento do Ranking dos Políticos registra 109 propostas de impeachment contra ministros do Supremo em tramitação no Congresso no período analisado, sendo que 67 delas citavam o ministro Alexandre de Moraes. Esses números são apresentados pela própria organização como parte do contexto para a análise das posições dos candidatos ao Senado.
O tema também aparece em processos e representações formalmente registrados no Senado. Em setembro, por exemplo, a Casa registrou a Petição 19/2026, apresentada pelo senador Carlos Viana (PSD-MG), contra o ministro Alexandre de Moraes, com fundamento no artigo 52, inciso II, da Constituição e em dispositivos da Lei nº 1.079/1950. A matéria permanecia em tramitação, aguardando despacho, conforme o registro oficial consultado.
Em outro episódio, o senador Carlos Viana anunciou, em 1º de setembro, a apresentação de pedido de impeachment contra Moraes. Na ocasião, segundo a Agência Senado, o parlamentar relacionou a iniciativa a suspeitas que, em sua avaliação, deveriam ser investigadas. As alegações foram apresentadas pelo próprio senador e não equivalem, por si só, a uma conclusão de responsabilidade do ministro.
O que diz a legislação
A Constituição Federal estabelece, no artigo 52, inciso II, que compete privativamente ao Senado Federal processar e julgar os ministros do STF nos crimes de responsabilidade. A regulamentação do procedimento está relacionada à Lei nº 1.079/1950, conhecida como Lei do Impeachment.
A legislação lista como crimes de responsabilidade de ministros do Supremo, entre outras hipóteses, alterar decisão ou voto já proferido, salvo pela via de recurso; julgar quando houver suspeição legal; exercer atividade político-partidária; apresentar desídia manifesta no cumprimento das funções; e proceder de maneira incompatível com a honra, a dignidade e o decoro do cargo.
O próprio Senado esclarece que pedidos dessa natureza são apresentados como denúncias por crimes de responsabilidade. A Casa também informa que qualquer cidadão pode apresentar denúncia contra ministros do STF nas hipóteses previstas na legislação. Depois de protocolada, a representação passa por etapas de tramitação e análise antes de eventual deliberação política pelos senadores.
Eleição renovará dois terços do Senado
O debate ganha uma dimensão adicional em 2026 porque a eleição deste ano renovará dois terços do Senado Federal. Serão escolhidos dois senadores por cada estado e pelo Distrito Federal, formando uma nova composição para a legislatura seguinte.
Com isso, as declarações dos atuais candidatos sobre o funcionamento do STF, eventuais processos de impeachment e mudanças no Judiciário passam a integrar o conjunto de posições públicas que podem ser analisadas pelos eleitores durante a campanha.
O levantamento, entretanto, ressalta que a fotografia apresentada corresponde às manifestações identificadas até a data da apuração e que a própria organização continuava realizando verificações diretamente com os candidatos. Portanto, novas declarações podem alterar a classificação de determinados nomes.
Debate deve continuar durante a reta final da campanha
Com a aproximação do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, a posição dos candidatos sobre o papel do Senado diante de eventuais pedidos de impeachment de ministros do STF tende a permanecer entre os assuntos de maior visibilidade no debate eleitoral.
Os dados levantados mostram, ao mesmo tempo, uma parcela significativa de candidatos que assumiu posição favorável ao afastamento, um grupo contrário à medida e uma quantidade expressiva de concorrentes que ainda não havia apresentado publicamente uma posição clara.
A diferença entre manifestação favorável, oposição ao impeachment, defesa de reformas no Judiciário e ausência de posicionamento também evidencia que o tema não se resume a uma divisão binária. Para o eleitor, conhecer exatamente o que cada candidato declarou e em quais condições permite distinguir apoio direto ao impeachment de posições condicionadas à existência de denúncia, investigação ou comprovação de eventual crime de responsabilidade.
Nesse cenário, a composição que será escolhida nas urnas terá importância institucional para qualquer discussão futura envolvendo o Supremo, uma vez que o Senado é o órgão constitucionalmente responsável pelo processamento e julgamento dos ministros da Corte em casos de crimes de responsabilidade.
Fonte: Ranking dos Políticos; Senado Federal.






