O uso do celular ao volante continua entre os comportamentos de maior risco no trânsito brasileiro. Em São Paulo, a dimensão do problema aparece nos números registrados pelo Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran-SP): entre janeiro e julho de 2026, foram aplicadas 122.771 multas relacionadas ao uso indevido do telefone celular durante a condução de veículos.
Os dados, enviados pelo Detran-SP ao portal Metrópoles, revelam a frequência com que motoristas ainda recorrem ao aparelho enquanto dirigem, mesmo diante dos riscos de distração e das penalidades previstas na legislação de trânsito. Mais do que uma infração administrativa, a conduta representa um fator capaz de comprometer significativamente a atenção, o tempo de reação e a capacidade do condutor de perceber situações inesperadas nas vias.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), utilizar o telefone celular enquanto dirige pode aumentar em até 400% o risco de acidentes. A estimativa reforça uma preocupação que atravessa campanhas de conscientização em diferentes países: ao volante, poucos segundos de distração podem ser suficientes para transformar uma situação cotidiana em uma ocorrência grave.
Três tipos de infração são considerados pelo Detran-SP
O Detran-SP estabelece diferentes enquadramentos para as situações envolvendo o uso do celular durante a condução. As penalidades variam de acordo com a maneira como o aparelho é utilizado pelo motorista.
Uma das situações é falar ao celular por meio de ligação telefônica enquanto dirige. Essa conduta é classificada como infração média e resulta em quatro pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH), além de multa de R$ 130,16.
Somente entre janeiro e julho deste ano, o Detran-SP registrou 14.064 penalidades relacionadas a esse tipo de comportamento no estado. Embora a infração seja considerada menos grave em comparação com outras formas de utilização do aparelho, especialistas alertam que a conversa pode desviar a atenção do condutor e reduzir sua capacidade de reagir adequadamente aos acontecimentos do trânsito.
Outra situação prevista na fiscalização ocorre quando o motorista segura o celular com uma das mãos enquanto mantém a outra no volante. Nesse caso, a infração é classificada como gravíssima, com sete pontos na CNH e multa de R$ 293,47.
Essa modalidade resultou em 17.446 autuações nos primeiros sete meses de 2026 em São Paulo. O enquadramento mais severo está relacionado ao fato de que o motorista deixa de manter as duas mãos disponíveis para a condução e pode ter sua atenção comprometida pela manipulação do aparelho.
Manusear o celular é a principal causa das autuações
O maior volume de multas, entretanto, está relacionado ao motorista que manuseia diretamente o dispositivo enquanto conduz o veículo, como nos casos em que digita mensagens, acessa aplicativos, rola a tela ou realiza outras ações no aparelho.
Essa conduta também é considerada infração gravíssima, com sete pontos na CNH e multa de R$ 293,47. Entre janeiro e julho de 2026, foram contabilizadas 91.261 autuações nessa categoria.
O número representa a maior parte das multas relacionadas ao celular registradas pelo Detran-SP no período. Considerando as três modalidades, as 91.261 autuações por manuseio do aparelho correspondem a aproximadamente 74% do total de 122.771 penalidades aplicadas no estado.
Os dados evidenciam que, apesar de campanhas educativas, fiscalizações e penalidades mais severas, o comportamento permanece presente no cotidiano do trânsito. Para especialistas, o problema está diretamente relacionado à falsa sensação de que é possível dividir a atenção entre a condução e as funcionalidades do aparelho.
Mensagens podem transformar segundos em metros de risco
Entre as práticas mais perigosas está o envio e a leitura de mensagens. Diferentemente de uma ligação, que também provoca distração, digitar ou acompanhar uma conversa exige que o motorista desvie não apenas a atenção mental, mas também, frequentemente, o olhar e as mãos da tarefa principal.
Um estudo citado pela Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) dimensiona o perigo de maneira concreta. A 80 km/h, um motorista que utiliza o celular para enviar mensagens pode percorrer uma distância equivalente a até 100 metros sem acompanhar adequadamente a via, em uma comparação que ajuda a compreender a gravidade da distração.
Na prática, isso significa que um veículo pode avançar dezenas de metros enquanto o condutor está concentrado na tela do telefone. Nesse intervalo, podem surgir pedestres, motociclistas, ciclistas, obstáculos, veículos freando repentinamente ou qualquer outra situação que exija uma reação imediata.
Fiscalização e conscientização caminham juntas
O volume de autuações registrado em São Paulo também reforça a importância de combinar fiscalização com ações permanentes de educação para o trânsito. A aplicação da multa tem caráter punitivo, mas a redução efetiva desse tipo de comportamento depende igualmente da mudança de hábitos dos motoristas.
O celular tornou-se uma ferramenta indispensável para comunicação, trabalho, entretenimento e acesso à informação. No entanto, quando o veículo está em movimento, qualquer interação com o aparelho pode representar uma decisão de risco.
A orientação dos órgãos de trânsito é simples: se for necessário atender uma ligação, responder uma mensagem, consultar um aplicativo ou realizar qualquer outra atividade no telefone, o motorista deve estacionar o veículo em local seguro antes de utilizar o aparelho.
Os números registrados nos primeiros sete meses de 2026 mostram que o desafio permanece expressivo. Com mais de 122 mil multas em apenas sete meses, São Paulo expõe uma realidade que ultrapassa a questão da infração: o combate ao uso do celular ao volante continua sendo uma das frentes essenciais para reduzir acidentes e preservar vidas no trânsito.
Em um cenário no qual poucos segundos podem representar dezenas de metros percorridos sem a devida atenção, deixar o celular de lado enquanto dirige não é apenas uma forma de evitar uma multa. É, sobretudo, uma atitude de responsabilidade com a própria vida e com a segurança de todos que compartilham as ruas e rodovias.






