Um movimento interno no Partido dos Trabalhadores (PT) no Tocantins abriu uma nova frente de tensão política dentro da sigla. No sábado (4), integrantes da corrente Articulação de Esquerda protocolaram um pedido formal para que a Executiva Nacional invalide a filiação da ex-ministra e ex-senadora Kátia Abreu, recém-ingressa no partido.
O recurso, encaminhado por um grupo minoritário, expõe divergências ideológicas e reacende debates históricos sobre os rumos do PT e os critérios para a entrada de novos quadros políticos. Ainda não há uma data definida para a análise do pedido, mas a expectativa é de que o tema seja incluído na pauta do próximo encontro da direção nacional.
No documento, os petistas apresentam uma série de críticas contundentes à trajetória política de Kátia Abreu. Entre os principais pontos levantados, está o histórico de apoio da ex-senadora a candidatos de direita em disputas estaduais no Tocantins, frequentemente em oposição aos nomes lançados pelo próprio PT.
Além disso, os signatários afirmam que Kátia Abreu nunca teria demonstrado alinhamento com pautas tradicionais da esquerda, como mobilizações populares, greves e ocupações organizadas pela classe trabalhadora. Para o grupo, esse distanciamento comprometeria a coerência ideológica exigida pelo estatuto partidário.
“A prática política de Kátia Abreu não demonstra compromisso com o artigo primeiro do estatuto do PT”, diz um trecho do documento, que reforça o entendimento de que a identidade do partido deve permanecer vinculada à defesa dos trabalhadores e das transformações sociais estruturais.
Outro ponto sensível destacado no recurso é a associação da ex-ministra ao agronegócio. Os integrantes da Articulação de Esquerda classificam Kátia Abreu como uma “representante dos latifundiários e das multinacionais do setor”, além de apontarem sua posição contrária à reforma agrária, uma das bandeiras históricas do partido.
O texto também resgata episódios do passado político da ex-senadora, como sua atuação em 2007 na articulação pela derrubada da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). Segundo o grupo, a medida enfraqueceu o governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva à época.
Em tom enfático, o documento reafirma princípios fundadores da legenda: “O PT não é o partido do latifúndio, do trabalho escravo e nem da burguesia. O PT é o partido da classe trabalhadora que luta por uma sociedade de igualdade e justiça, pela reforma agrária e urbana, pela liberdade de organização dos trabalhadores e trabalhadoras e pelo socialismo”.
A filiação de Kátia Abreu ao PT ocorreu no mesmo sábado em que o recurso foi apresentado. A ex-senadora deixou o Progressistas (PP), partido ao qual esteve vinculada por sete anos, e anunciou sua chegada à nova legenda por meio das redes sociais.
Em vídeo divulgado após a filiação, Kátia Abreu afirmou que sua decisão está alinhada à defesa das instituições democráticas e ao apoio ao atual governo federal. “Vou participar da luta pela democracia e pela reeleição do presidente Lula”, declarou.
A possível judicialização interna da filiação evidencia o desafio do PT em equilibrar sua estratégia de ampliação política com a preservação de sua identidade ideológica. O desfecho do caso deve servir como termômetro para futuras incorporações de lideranças com trajetórias fora do campo tradicional da esquerda.





