A operadora de saúde Hapvida ingressou com uma ação na Justiça de Minas Gerais para cobrar cerca de R$ 11 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro, em meio a desdobramentos financeiros da negociação que envolveu a venda da rede Promed, em 2021. O caso, que volta ao centro das atenções do mercado, evidencia as complexidades de contratos bilionários no setor de saúde suplementar e levanta novos questionamentos sobre o cumprimento de cláusulas de ajuste pós-aquisição.
Na petição inicial, os advogados da empresa formalmente representada no processo pela Ultra Som Serviços Médicos S.A. solicitaram a expedição de carta precatória para viabilizar a citação de Vorcaro. O banqueiro encontra-se preso na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, o que levou a defesa da Hapvida a requerer que a intimação ocorra diretamente na unidade da PF.
Além de Daniel Vorcaro, também figuram como réus na ação Henrique Vorcaro, pai do banqueiro e controlador do Banco Master, e Natália Vorcaro, irmã. Ambos foram alvos da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal, que investiga suspeitas de irregularidades financeiras. Como parte das medidas judiciais, bens dos envolvidos chegaram a ser bloqueados.
Negócio bilionário e cláusulas de ajuste
A disputa judicial tem origem na aquisição da Promed pela Hapvida, concluída em maio de 2021. O negócio foi avaliado em aproximadamente R$ 1 bilhão mais precisamente R$ 1.000.385.531,00 além da assunção de cerca de R$ 500 milhões em dívidas. A operação foi considerada estratégica à época, ampliando a presença da Hapvida em Minas Gerais e fortalecendo sua carteira de clientes.
Do montante total, a maior parte foi destinada à família Vorcaro, com divisão relevante entre Daniel (32%), Henrique (42%) e Natália (10%). No entanto, apenas uma fração do pagamento foi feita em dinheiro, cerca de R$ 65 milhões. O restante ocorreu por meio da transferência de ações da Hapvida Participações e Investimentos S.A., negociadas na B3 sob o código HAPV3.
Somente Daniel Vorcaro recebeu aproximadamente 13 milhões de ações ordinárias da companhia, o que o tornou um dos beneficiários diretos da operação. Esse tipo de estrutura, comum em negociações de grande porte, atrela parte do pagamento ao desempenho futuro da empresa adquirente.
Revisões contratuais e divergências
Contratos dessa magnitude costumam prever mecanismos de revisão periódica de valores, conhecidos no jargão do mercado como “ajustes de preço”. No caso da Promed, essas revisões foram estipuladas para ocorrer nos chamados “aniversários” do contrato, levando em conta variáveis como passivos judiciais, desempenho operacional, número de beneficiários e eventuais contingências.
Até maio de 2023, segundo a Hapvida, os ajustes indicavam saldo devedor por parte da família Vorcaro, que chegou a aproximadamente R$ 83 milhões. Esse valor teria sido quitado pelo próprio Daniel Vorcaro, encerrando, naquele momento, uma primeira fase de reequilíbrio financeiro do contrato.
Contudo, com o avanço de novos ciclos de revisão dois “aniversários” adicionais , a operadora sustenta que a balança voltou a pender a seu favor. De acordo com a empresa, foram apurados novos valores devidos que ultrapassam R$ 22 milhões, sem que houvesse contestação formal por parte dos réus.
Parte dessa quantia, cerca de metade, teria sido abatida diretamente de valores vinculados a Daniel Vorcaro em fevereiro deste ano. Ainda assim, a Hapvida afirma restar um saldo próximo de R$ 11 milhões a ser quitado, montante que agora é objeto da ação judicial.
Silêncio e desdobramentos
Até o momento, não há manifestação pública recente de Daniel Vorcaro ou de seus representantes sobre a nova cobrança. O espaço segue aberto para posicionamento da defesa. Especialistas avaliam que o caso pode se arrastar nos tribunais, dada a complexidade dos contratos e a necessidade de perícias técnicas para validar os cálculos apresentados.
O episódio reforça como operações de fusões e aquisições especialmente no setor de saúde, marcado por alta litigiosidade e passivos relevantes podem gerar disputas prolongadas mesmo anos após sua conclusão. Enquanto isso, o desfecho do processo deve ser acompanhado de perto por investidores e analistas do mercado, atentos aos possíveis impactos financeiros e reputacionais para as partes envolvidas.





