Doença infecciosa de progressão lenta e silenciosa, a tuberculose ainda representa um dos maiores desafios da saúde pública mundial. Em muitos casos, o diagnóstico só ocorre quando a enfermidade já se encontra em estágio avançado, com elevado comprometimento dos pulmões provocado pela bactéria Mycobacterium tuberculosis. Essa característica discreta da doença sempre dificultou a compreensão de como o microrganismo consegue invadir o organismo humano e superar as primeiras barreiras naturais de defesa dos alvéolos pulmonares.
Esse cenário começa a mudar graças a um avanço tecnológico considerado promissor. Pesquisadores do Reino Unido desenvolveram, em laboratório, um minipulmão com apenas três milímetros de diâmetro, combinando células humanas com componentes plásticos de alta precisão. A estrutura, conhecida como “órgão em chip”, foi criada para simular com fidelidade o ambiente pulmonar humano.
A partir desse modelo inovador, os cientistas conseguiram infectar o minipulmão com a bactéria causadora da tuberculose e, pela primeira vez, acompanhar em tempo real as interações iniciais entre o patógeno e o tecido pulmonar. A experiência permitiu observar, de forma direta, como a bactéria se instala, se adapta e começa a comprometer as funções respiratórias logo nos estágios iniciais da infecção.
Os resultados do estudo foram publicados no dia 1º de janeiro na revista científica Science Advances e já despertam interesse da comunidade médica internacional. Segundo os pesquisadores, a possibilidade de visualizar o comportamento da Mycobacterium tuberculosis em um ambiente que reproduz fielmente o pulmão humano abre caminho para novas estratégias de diagnóstico precoce e tratamentos mais eficazes.
Embora modelos de minipulmões com células humanas já tenham sido desenvolvidos anteriormente, os especialistas destacam que esta nova versão apresenta diferenças significativas. Os modelos anteriores não conseguiam manter plenamente a função pulmonar e, em geral, utilizavam material genético de múltiplos doadores. No estudo britânico, o órgão foi produzido a partir de células de um único doador, garantindo maior precisão biológica, além de contar com um sistema que simula o ato de “respirar”, reproduzindo os movimentos naturais do pulmão.
Para os cientistas, essa inovação representa um marco no estudo da tuberculose e de outras doenças respiratórias. Ao permitir a observação detalhada das fases iniciais da infecção, a tecnologia pode acelerar o desenvolvimento de novos medicamentos, vacinas e abordagens terapêuticas, contribuindo para reduzir os impactos de uma doença que ainda mata milhares de pessoas todos os anos em todo o mundo.





