A agência reguladora norte-americana Food and Drug Administration (FDA), equivalente à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Brasil, autorizou a ampliação do uso do Addyi (flibanserina) para mulheres que já passaram pela menopausa. Até então, o medicamento era indicado apenas para pacientes na pré-menopausa. Com a nova decisão, o fármaco popularmente conhecido como “pílula rosa” poderá ser prescrito inclusive para mulheres acima dos 65 anos que apresentam redução persistente do desejo sexual.
A medida representa um avanço no reconhecimento da saúde sexual feminina como parte integrante do bem-estar ao longo de toda a vida. Ao mesmo tempo, reacende discussões na comunidade médica sobre eficácia, segurança e alinhamento de expectativas em relação ao tratamento farmacológico da libido feminina.
Novo cenário para o tratamento do desejo sexual
Diferentemente dos medicamentos voltados ao público masculino, que atuam diretamente na resposta física e vascular, a flibanserina age no sistema nervoso central. Seu mecanismo está relacionado ao equilíbrio de neurotransmissores associados ao desejo sexual, como dopamina, serotonina e noradrenalina, o que torna seus efeitos mais sutis e graduais.
Segundo especialistas, os resultados do tratamento são considerados modestos do ponto de vista estatístico. “Há um aumento mensurável na frequência de experiências sexuais consideradas satisfatórias, mas isso não deve ser interpretado como uma mudança radical ou um estímulo imediato ao desejo”, explica o médico Borzino, que acompanha estudos sobre o tema. Ele ressalta que o medicamento não tem efeito afrodisíaco e tampouco promove resultados imediatos.
Indicação específica e critérios clínicos
O Addyi é indicado exclusivamente para o tratamento do Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH), uma condição clínica caracterizada pela ausência persistente de libido acompanhada de sofrimento emocional relevante. O diagnóstico diferencia-se das variações naturais do desejo sexual, comuns ao longo do envelhecimento, da menopausa ou do desgaste emocional em relacionamentos de longa duração.
Especialistas destacam que a correta identificação do TDSH é essencial para evitar o uso indiscriminado do medicamento. “Nem toda diminuição do desejo sexual configura um transtorno. É preciso avaliar fatores emocionais, hormonais, relacionais e sociais antes de recorrer a um tratamento farmacológico”, reforçam profissionais da área.
Riscos, efeitos colaterais e restrições
Apesar da ampliação da indicação, a flibanserina exige cuidados rigorosos. Entre os efeitos colaterais mais frequentemente relatados estão tontura, náusea, fadiga e sonolência. No entanto, o principal alerta da comunidade médica diz respeito ao risco de queda acentuada da pressão arterial e episódios de desmaio.
Esses efeitos podem ser intensificados de forma significativa quando há consumo de álcool, motivo pelo qual o uso do medicamento está associado à recomendação de abstinência alcoólica durante todo o tratamento. Além disso, mulheres com doenças hepáticas ou que utilizam medicamentos como certos antidepressivos, antifúngicos, anticoncepcionais hormonais ou outros fármacos metabolizados pelo fígado precisam passar por avaliação criteriosa. A combinação pode elevar a toxicidade ou reduzir a eficácia do remédio.
A importância do acompanhamento médico
Para pacientes que convivem com doenças crônicas, como hipertensão arterial ou diabetes, o uso do Addyi não é automaticamente contraindicado, mas requer monitoramento constante. Como a flibanserina atua diretamente no sistema nervoso central, médicos reforçam a necessidade de acompanhamento contínuo para avaliar riscos, benefícios e impactos reais na qualidade de vida da paciente.
A ampliação da indicação do medicamento pelo FDA abre novas possibilidades terapêuticas, mas também reforça a importância de uma abordagem individualizada e responsável. Mais do que uma solução isolada, especialistas defendem que a saúde sexual feminina seja tratada de forma integral, considerando aspectos físicos, emocionais e sociais, com informação clara, expectativas realistas e vigilância médica permanente.





