A Bahia caminha para completar 44 anos de eleições diretas, entre disputas estaduais, nacionais e municipais, desde o processo de abertura política que marcou o fim do período da ditadura militar no Brasil. Ao longo dessas mais de quatro décadas de redemocratização, um traço recorrente se consolidou no cenário político baiano: a presença feminina com maior frequência no posto de vice nas chapas majoritárias, enquanto a liderança principal permanece predominantemente masculina.
Embora a participação das mulheres na política tenha ampliado espaço nas últimas décadas, especialistas apontam que a dinâmica partidária ainda revela um desequilíbrio estrutural. Na prática, muitas candidaturas femininas acabam sendo inseridas como parte de estratégias eleitorais com o objetivo de ampliar o diálogo com o eleitorado sem necessariamente representar um avanço proporcional na ocupação dos principais cargos de poder.
Mulheres como vice: estratégia política
Para a professora de Ciência Política da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Maria Inês Ferreira, a presença feminina nas chapas majoritárias tem crescido, mas ainda ocorre majoritariamente em posições secundárias.
Segundo a cientista política, é incomum que mulheres liderem chapas competitivas.
“Observamos que muitas vezes as mulheres têm sido indicadas como vice em chapas majoritárias em todo o país. Raramente elas são indicadas como cabeça de chapa, principalmente nas candidaturas com maior intenção de voto e com reais chances de vitória”, analisa.
Na avaliação da professora, essa escolha não é aleatória. Em muitos casos, os partidos enxergam a presença feminina como forma de ampliar representatividade e atrair segmentos do eleitorado, especialmente diante das discussões sobre igualdade de gênero e participação política.
Ainda assim, ela ressalta que essa prática, embora represente algum avanço, está longe de alterar de forma profunda o domínio masculino na estrutura partidária.
“A indicação de mulheres como vice é positiva, mas é apenas um começo. Isso não significa, necessariamente, que haverá transformação no quadro de predominância masculina nas máquinas partidárias que organizam e controlam as candidaturas”, pontua.
Dados mostram estabilidade no cenário estadual
Quando se observa especificamente o cenário das eleições para o governo da Bahia, os números revelam que o crescimento da participação feminina ainda é limitado.
Comparando os pleitos de 2002 e 2022, por exemplo, o número de mulheres indicadas como candidatas a vice-governadora foi exatamente o mesmo: apenas duas em cada eleição.
Em 2002, as candidatas foram Nilza Lima, do PT, que integrou a chapa liderada por Jaques Wagner, e Ednailda dos Santos, do PCO, vice na candidatura de Antônio Eduardo.
Já na eleição de 2022, duas mulheres voltaram a disputar o posto de vice-governadora: Ana Coelho, na chapa encabeçada por ACM Neto, e Leonídia Umbelina, vice do candidato João Roma.
O histórico recente mostra ainda oscilações pontuais. Em 2014, nenhuma chapa majoritária ao governo do estado contou com uma mulher como candidata a vice. Já em 2018, o cenário foi o oposto: quatro das cinco chapas apresentadas na disputa trouxeram mulheres como companheiras de candidatura.
Salvador registra maior presença feminina nas chapas
No âmbito municipal, especialmente em Salvador, maior colégio eleitoral da Bahia, o número de mulheres como candidatas a vice-prefeita tem aumentado nas últimas eleições.
No pleito de 2024, por exemplo, entre os cinco candidatos à prefeitura da capital baiana, apenas uma chapa apresentou um homem como vice: a candidatura de Victor Marinho, do PSTU.
As demais candidaturas apostaram em mulheres para compor as chapas:
- Ana Paula Matos (PDT), vice de Bruno Reis (União Brasil) chapa eleita
- Fabya Reis (PT), vice de Geraldo Júnior (MDB)
- Cheyenne Ayalla (PCB), vice de Giovani Damico (PCB)
- Dona Mira (PSOL), vice de Kleber Rosa (PSOL)
- Giovana Ferreira (UP), vice de Eslane Paixão (UP)
Presença feminina ainda é exceção na história da capital
Apesar do aumento recente, a presença de mulheres na vice-prefeitura da capital ainda é rara quando se observa a história política de Salvador.
Atualmente, o cargo é ocupado por Ana Paula Matos, reeleita na chapa de Bruno Reis. Antes dela, apenas duas mulheres haviam exercido a função.
Uma delas foi Beth Wagner, que governou entre 1993 e 1996 ao lado da então prefeita Lídice da Mata, na única vitória de uma chapa 100% feminina na história da cidade. Posteriormente, o cargo também foi ocupado por Célia Sacramento, vice-prefeita entre 2013 e 2016.
Debate sobre representatividade continua
Especialistas destacam que o crescimento da presença feminina nas chapas, mesmo que ainda predominantemente como vice, representa um sinal de mudança gradual no ambiente político brasileiro. No entanto, a ampliação da participação efetiva das mulheres especialmente nos cargos de liderança ainda depende de transformações mais profundas nas estruturas partidárias e na cultura política.
Com a aproximação de novas disputas eleitorais e o fortalecimento dos debates sobre igualdade de gênero, a expectativa de pesquisadores e movimentos sociais é que a presença feminina avance não apenas como coadjuvante nas chapas, mas também como protagonista nas decisões políticas do país.





