A presença do celular no cotidiano infantil deixou de ser exceção e passou a integrar a rotina de muitas famílias brasileiras. Seja para assistir a vídeos, jogar, conversar com parentes ou ocupar o tempo em momentos de espera, o telefone móvel tornou-se um recurso frequente desde os primeiros anos de vida. Esse cenário, no entanto, levanta uma dúvida recorrente entre pais e responsáveis: qual é o momento certo para a criança ter o próprio aparelho?
Especialistas em saúde e desenvolvimento infantil são unânimes ao afirmar que não existe uma idade única que sirva como regra geral. Cada criança possui um ritmo próprio de amadurecimento emocional, cognitivo e social. Ainda assim, a orientação predominante é clara: quanto mais tarde o acesso individual ao celular acontecer, melhor tende a ser para o desenvolvimento infantil.
A infância é considerada uma fase essencial para a construção de habilidades fundamentais, como empatia, comunicação, atenção e capacidade de convivência. Essas competências, segundo os profissionais, se desenvolvem principalmente por meio de interações reais brincadeiras presenciais, conversas olho no olho e experiências fora do ambiente digital.
De acordo com a pediatra e neonatologista Renata Castro, membro da Sociedade Brasileira de Pediatria, o uso excessivo do celular pode comprometer etapas importantes desse processo.
“Nos primeiros anos de vida, a linguagem se desenvolve sobretudo por meio da interação direta com adultos e outras crianças, da escuta ativa e da troca de olhares. Quando o celular passa a ser utilizado como distração constante, essas interações diminuem. Além disso, conteúdos rápidos e altamente estimulantes podem dificultar o desenvolvimento da atenção sustentada”, explica a especialista.
Outro ponto de atenção está relacionado ao funcionamento do cérebro infantil. Durante a infância, o cérebro ainda está em formação, especialmente nas áreas responsáveis pelo autocontrole, pela atenção e pela tomada de decisões. Por esse motivo, o uso de um celular próprio exige um nível de maturidade que muitas crianças ainda não alcançaram.
Para os especialistas, antes dos nove ou dez anos, o aparelho dificilmente se configura como uma necessidade real. Nessa fase, o mais indicado é que o contato com telas seja limitado, supervisionado e, sempre que possível, compartilhado com adultos. Já a liberação de um celular próprio costuma ser considerada mais adequada a partir da pré-adolescência ou adolescência, geralmente entre 12 e 14 anos, quando há maior capacidade de compreender regras, lidar com frustrações e reconhecer riscos do ambiente digital.
Mesmo quando o acesso é iniciado, o consenso é de que ele não deve ser irrestrito. A recomendação é que aconteça de forma gradual, com limites claros de tempo de uso, definição de horários, acompanhamento do conteúdo acessado e diálogo constante entre pais e filhos. O celular, segundo os especialistas, deve ser visto como uma ferramenta e não como substituto de vínculos, brincadeiras ou convivência familiar.
Em um mundo cada vez mais conectado, o desafio das famílias está em equilibrar tecnologia e desenvolvimento saudável, garantindo que a infância continue sendo um período de descobertas, interação humana e aprendizado fora das telas.





