Uma ampla meta-análise internacional, que avaliou dados de quase 24 mil pessoas idosas, reforça a importância do apoio emocional como fator de proteção contra a depressão na terceira idade. O estudo indica que idosos que contam com alguém para conversar, compartilhar sentimentos e receber acolhimento emocional apresentam menor intensidade de sintomas depressivos, independentemente do país ou do contexto cultural em que vivem.
A depressão é considerada um grave problema de saúde pública e afeta mais de 25 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS). Entre a população idosa, o avanço da doença ocorre de forma acelerada, elevando o risco de mortalidade, agravamento de enfermidades crônicas, declínio cognitivo, perda de autonomia e, em casos mais extremos, suicídio.
Publicado em outubro no American Journal of Epidemiology, o trabalho reuniu dados de 11 estudos realizados em países com realidades sociais e culturais distintas, como Brasil, Austrália, China, Alemanha, Índia, Coreia do Sul, Suécia e Estados Unidos. Apesar das diferenças econômicas e culturais, os resultados apontaram para uma conclusão semelhante em todas as regiões analisadas.
De acordo com a pesquisa, o suporte emocional definido como a presença de alguém com quem o idoso possa conversar, desabafar e se sentir ouvido esteve consistentemente associado à redução dos sintomas depressivos. Já o apoio instrumental, caracterizado por ajuda prática no dia a dia, como cuidados pessoais ou tarefas domésticas, não demonstrou o mesmo efeito protetor. Em algumas populações, inclusive, esse tipo de apoio apareceu relacionado a níveis mais elevados de depressão.
Para a geriatra Thais Ioshimoto, do Hospital Israelita Albert Einstein, os achados dialogam com o que já é observado na prática clínica. “A depressão no idoso é uma condição bastante prevalente. As estimativas variam, mas cerca de 20% da população idosa apresenta algum grau de depressão. Quando não identificada e tratada adequadamente, a doença pode gerar impactos significativos na saúde física, emocional e na qualidade de vida”, destaca.
Segundo a especialista, a diferença entre apoio emocional e apoio instrumental está na forma como o idoso vivencia essas experiências. “O apoio instrumental envolve ajuda nas tarefas cotidianas, como tomar banho, trocar de roupa ou levantar da cama. Embora seja essencial em muitos casos, ele pode, em determinadas situações, reforçar sentimentos de dependência e perda de autonomia”, explica.
Já o apoio emocional, segundo Ioshimoto, atua de maneira mais profunda. “É o acolhimento, a escuta ativa, a sensação de pertencimento. Ter alguém para conversar, para dividir angústias e alegrias, fortalece o vínculo social e contribui diretamente para a saúde mental do idoso”, afirma.
Os pesquisadores ressaltam que os resultados reforçam a necessidade de políticas públicas e estratégias de cuidado que valorizem não apenas a assistência prática, mas também o fortalecimento das redes de apoio social e emocional. Iniciativas comunitárias, grupos de convivência, acompanhamento psicológico e estímulo ao contato familiar são apontados como caminhos importantes para enfrentar o avanço da depressão na velhice.
Diante do envelhecimento acelerado da população mundial, especialistas alertam que investir em saúde mental na terceira idade não é apenas uma questão de bem-estar individual, mas um desafio coletivo. “Cuidar da saúde emocional dos idosos é cuidar do futuro da sociedade”, conclui a geriatra.





