Em um movimento considerado histórico para o comércio internacional, a União Europeia e o Mercosul devem formalizar, no próximo dia 17, o maior acordo comercial já firmado entre os dois blocos econômicos. O pacto é visto como um marco na defesa do multilateralismo, em um cenário global marcado por tensões geopolíticas, disputas comerciais e tendências protecionistas.
Embora a assinatura represente um avanço decisivo após mais de duas décadas de negociações, a entrada em vigor do acordo ainda depende de um processo complexo e demorado. Após a formalização, o texto precisará ser submetido à aprovação dos parlamentos nacionais dos países integrantes dos dois blocos. Esse trâmite pode se estender por anos, uma vez que envolve diferentes sistemas legislativos e debates internos sensíveis, especialmente em temas como meio ambiente, agricultura e proteção industrial.
Apesar disso, o governo brasileiro trabalha com a expectativa de que o acordo possa começar a valer ainda em 2026. A estratégia passa pela aprovação do texto no Congresso Nacional, independentemente do andamento do processo legislativo nos demais países do Mercosul. Pelas regras do tratado, não é necessário que todos os membros do bloco sul-americano ratifiquem simultaneamente o acordo para que ele passe a vigorar nos países que já tenham concluído seus trâmites internos.
Nos bastidores do Palácio do Planalto, a avaliação é de que o Brasil pode sair na frente e colher os primeiros frutos da parceria com a União Europeia, abrindo mercados, reduzindo tarifas e ampliando o fluxo de investimentos estrangeiros. O entendimento é de que a antecipação da vigência fortaleceria a competitividade da indústria nacional e do agronegócio, além de ampliar a presença de produtos brasileiros no mercado europeu.
O vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, tem reiterado publicamente a confiança nesse cronograma. Segundo ele, há um esforço concentrado para que o Congresso Nacional analise o acordo ainda no primeiro semestre. “O acordo deve ser assinado nos próximos dias, e a nossa expectativa é de que a vigência ocorra este ano”, afirmou o ministro. “Se o Congresso brasileiro votar no primeiro semestre, nós não dependemos da Argentina, do Uruguai e do Paraguai. Já entra em vigência.”
Diplomatas brasileiros também destacam que o acordo consolida uma parceria estratégica entre dois dos maiores mercados consumidores do planeta. Juntos, União Europeia e Mercosul somam cerca de 780 milhões de habitantes e representam uma parcela significativa do Produto Interno Bruto (PIB) global. Para analistas, trata-se de um sinal político relevante em defesa do comércio baseado em regras e da cooperação internacional.
Por outro lado, o tratado não é consenso. Na Europa, setores agrícolas demonstram resistência, temendo a concorrência de produtos sul-americanos. Já no Mercosul, há preocupações relacionadas à abertura de mercados industriais e às exigências ambientais impostas pelos europeus. Esses pontos prometem alimentar debates intensos nos parlamentos nacionais.
Mesmo diante das controvérsias, a avaliação predominante no governo brasileiro é de que os benefícios superam os riscos. A expectativa é que, uma vez em vigor, o acordo estimule o crescimento econômico, gere empregos e reforce a inserção do Brasil nas cadeias globais de valor, consolidando o país como um ator relevante no comércio internacional do século XXI.





