O diretor Renato Gomes deixou o Banco Central (BC) no último dia 31 e retornou à iniciativa privada com um currículo respeitável: formação acadêmica na França e a reputação de técnico experiente dentro do sistema financeiro. No entanto, sua passagem pela Diretoria de Organização do Sistema Financeiro termina marcada por uma decisão que tem provocado críticas e questionamentos no mercado.
Responsável por comandar a área que funciona como uma espécie de “porteiro” do sistema bancário, o departamento que decide quem pode entrar ou sair do mercado financeiro , Gomes tinha sob sua alçada a análise de operações de compra e venda de instituições financeiras. É nessa diretoria que chegam propostas de aquisição de bancos, cabendo ao diretor verificar a capacidade financeira dos compradores e a viabilidade dos negócios.
Foi exatamente nesse contexto que, na tarde de 18 de novembro, deu entrada no Banco Central uma proposta do Grupo Fictor para a compra do Banco Master. O plano previa um aporte de R$ 3 bilhões em capital privado, solução típica do mercado para resolver dificuldades financeiras sem recorrer a recursos públicos ou parafiscais.
Entre a apresentação formal da proposta, às 14h10, e a decretação da liquidação do banco, às 16h11, transcorreram pouco mais de duas horas. Descontados os trâmites judiciais e administrativos, o tempo efetivo de análise teria sido de apenas 42 minutos. Um intervalo que, segundo críticos, é insuficiente para avaliar adequadamente uma operação dessa magnitude, envolvendo cifras bilionárias e impactos relevantes para o sistema financeiro.
Ao optar pela liquidação do Banco Master sem examinar em profundidade a proposta de venda, o Banco Central fez uma escolha clara. Havia duas alternativas sobre a mesa. A primeira era permitir ou ao menos analisar a tentativa de salvamento do banco por meio de capital privado, com risco e custo praticamente nulos para o sistema e para os cofres públicos. A segunda, que acabou sendo adotada, foi decretar o encerramento da instituição e acionar o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo que protege depositantes, mas que pode gerar prejuízos bilionários ao setor financeiro, custos que, em última instância, acabam sendo socializados.
Embora o Banco Central tenha prerrogativa legal para rejeitar operações de aquisição, especialistas ressaltam que decisões dessa natureza precisam ser devidamente fundamentadas. Avaliar, julgar e descartar uma proposta de R$ 3 bilhões em menos de uma hora levanta dúvidas sobre o rigor técnico do processo e alimenta a percepção de precipitação.
Com a saída de Renato Gomes do BC, os efeitos da decisão permanecem. O episódio expõe não apenas o impacto financeiro imediato, mas também o debate mais amplo sobre governança, transparência e o custo que decisões apressadas da burocracia estatal podem impor ao sistema e, indiretamente, aos contribuintes.





